Ordens parciais e funções
Relações de ordem, diagramas de Hasse, funções, composição, inversas e cardinalidade.
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As relações binárias dividem-se em duas grandes famílias com usos opostos. As relações de equivalência agrupam objetos iguais sob algum critério; as relações de ordem hierarquizam-nos. E as funções são o caso especial de relação onde cada entrada tem exatamente uma saída. Esta página cobre as três ideias: ordens, funções e o tamanho do infinito.
Ordens parciais
Uma ordem parcial num conjunto é uma relação reflexiva, antissimétrica e transitiva, escrita . O par chama-se conjunto parcialmente ordenado, ou cpo. Exemplos:
- : reflexiva (), antissimétrica e transitiva.
- : a inclusão no conjunto das partes de qualquer é uma ordem parcial.
- A divisibilidade em (): reflexiva, antissimétrica (se e com naturais, então ) e transitiva.
Dois elementos dizem-se comparáveis se ou . A ordem é parcial precisamente porque pode haver pares incomparáveis: em , os conjuntos e não se comparam. Se todos os pares forem comparáveis, a ordem é total: é total, e a ordem alfabética das palavras (ordem lexicográfica) é outro exemplo.
Escreve-se para ” e ”. Convém fixar esta notação porque os enunciados usam-na nos diagramas.
Diagramas de Hasse e elementos especiais
Um diagrama de Hasse desenha a ordem sem setas redundantes: coloca abaixo de quando , liga apenas as coberturas diretas e omite os laços reflexivos e as setas que a transitividade implicaria.
Exemplo: os divisores de 12 ordenados por divisibilidade, . O 1 fica na base, ligado a 2 e 3; 2 liga a 4 e 6; 3 liga a 6; 4 e 6 ligam a 12. Não se desenha seta de 1 para 12 porque já se chega lá por caminhos (transitividade), nem de 2 para 12 pelo mesmo motivo.
Num cpo distinguimos:
- Maximal: nada está estritamente acima dele. Minimal: nada está estritamente abaixo.
- Máximo: está acima de todos. Mínimo: está abaixo de todos. Máximo e mínimo, quando existem, são únicos; maximais pode haver vários.
- Majorante de um subconjunto : está acima de todos os elementos de . Supremo (): o menor dos majorantes. Minorante e ínfimo () por dualidade.
No exemplo dos divisores de 12: 12 é o máximo, 1 é o mínimo. Para : os majorantes são 6 e 12, e o supremo é 6; o único minorante é 1, que é também o ínfimo. Repara que o supremo de não pertence a nem precisa de pertencer: o supremo vive no conjunto ambiente, não necessariamente no subconjunto.
Funções: definição exigente
Uma função é uma relação de para onde cada tem exatamente um com . Escreve-se ; é o domínio, o conjunto de chegada, e o conjunto dos valores efetivamente atingidos é a imagem (ou contradomínio).
As duas condições chumbam candidatas com frequência:
- Falha a existência: com não é função em todo o , porque não tem imagem. Restringindo o domínio a , já é.
- Falha a unicidade: a relação ” é raiz quadrada de ” em associa dois valores a cada , por isso não é função.
Injetiva, sobrejetiva, bijetiva
- Injetiva: entradas diferentes dão saídas diferentes; implica . Nada de “colisões”.
- Sobrejetiva: todos os elementos do conjunto de chegada são atingidos; .
- Bijetiva: ambas. Uma bijeção emparelha e elemento a elemento.
Exemplo de referência: , . É injetiva: dá . É sobrejetiva: dado , verifica . Logo é bijetiva.
Contrasta com , . É injetiva ( dá ), mas não é sobrejetiva: não é o dobro de nenhum inteiro. O mesmo “dobro” seria bijetivo de para os pares, o que mostra que a sobrejetividade depende do conjunto de chegada declarado, não só da fórmula.
Composição e inversa
A composta aplica e depois ; exige que a imagem de caiba no domínio de . A composição é associativa, , mas não é comutativa.
A função identidade é o elemento neutro: . Uma função tem inversa (com e ) se e só se é bijetiva.
Exemplo completo: com e , ambas de em . Então . Logo , e com um cálculo análogo , por isso e são inversas uma da outra. Repara que foi preciso excluir e do domínio para as fórmulas fazerem sentido: a inversa só existe onde a função está bem definida.
Cardinalidade: contar até ao infinito
Dois conjuntos têm a mesma cardinalidade quando existe uma bijeção entre eles. Para conjuntos finitos isto coincide com “ter o mesmo número de elementos”. Para infinitos, reserva surpresas:
- e têm a mesma cardinalidade, embora . A bijeção (com a começar em 1, como na cadeira) dada por se é par e se é ímpar produz , , , , , e continua a intercalar. Todo o inteiro aparece exatamente uma vez.
- também é enumerável (em bijeção com ).
- é não enumerável: nenhuma lista cobre todos os reais. O argumento diagonal de Cantor mostra que, dada qualquer sequência de reais, se constrói um real fora dela.
Para classificar: finito (bijeção com ), infinito enumerável (bijeção com ) ou não enumerável. Um produto cartesiano de enumeráveis continua enumerável, e qualquer intervalo real não degenerado, como , já é não enumerável. Por exemplo, é enumerável (está em bijeção com via ), enquanto é não enumerável (a projeção no eixo dos cobre ).