Provas em lógica proposicional

Dedução natural, notação de Fitch, subdeduções, contradição e escolha de regras.

TLDR

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Uma tabela mostra que uma conclusão é consequência das premissas. Uma dedução mostra como chegar à conclusão com regras de inferência. Escrevemos Γ⊢φ\Gamma\vdash\varphi quando existe uma dedução de φ\varphi a partir das premissas Γ\Gamma.

Na dedução natural, DN, podemos abrir hipóteses temporárias. Cada hipótese só sai através da regra que fecha a sua caixa; ao fechar, a conclusão deixa de depender dela. Esta gestão das hipóteses é tão necessária como escolher a conetiva certa.

Eliminação da implicação

De p→qp\to q e pp, obtemos qq por eliminação da implicação, →E\to E:

1  p → q       premissa
2  p           premissa
3  q           →E, 1, 2

Se pp significa «há autorização» e qq significa «a porta abre», a regra usa a autorização e a condição que a liga à abertura. Só ter p→qp\to q não permite concluir qq: falta garantir o antecedente.

Quando abres uma hipótese, anota o que queres obter antes de a fechar. Uma caixa fechada deixa de estar acessível; duas caixas abertas lado a lado são irmãs e não partilham linhas entre si.

Regras básicas

Cada conetiva tem regras de introdução, para a construir, e de eliminação, para a usar.

RegraO que permite
∧I\land IDe φ\varphi e ψ\psi, obter φ∧ψ\varphi\land\psi.
∧E\land EDe φ∧ψ\varphi\land\psi, obter qualquer um dos membros.
∨I\lor IDe φ\varphi, obter φ∨ψ\varphi\lor\psi ou ψ∨φ\psi\lor\varphi.
∨E\lor EDe φ∨ψ\varphi\lor\psi e duas subdeduções com a mesma conclusão θ\theta, uma assumindo φ\varphi e outra ψ\psi, obter θ\theta.
→E\to EDe φ→ψ\varphi\to\psi e φ\varphi, obter ψ\psi. É modus ponens.
→I\to ISe assumir φ\varphi permite deduzir ψ\psi, fechar essa hipótese e obter φ→ψ\varphi\to\psi.
FIF IDe φ\varphi e ¬φ\neg\varphi, obter a contradição FF.
FEF EDe FF, obter qualquer fórmula.
¬I\neg ISe assumir φ\varphi permite obter FF, fechar a hipótese e obter ¬φ\neg\varphi.
¬E\neg EDe ¬¬φ\neg\neg\varphi, obter φ\varphi.
RRRepetir uma fórmula que está acessível.

A regra ¬E\neg E aqui é a eliminação da dupla negação, conforme a notação da cadeira. Não a confundas com FIF I. Usa as regras de base quando o enunciado não autorizar regras derivadas.

Notação de Fitch e âmbito

Numeramos as linhas, escrevemos a regra e indicamos as linhas usadas. A indentação e a barra vertical assinalam uma subdedução.

Vamos provar (p∨q)→r⊢p→r(p\lor q)\to r\vdash p\to r. A conclusão é uma implicação. Abrimos a hipótese pp e tentamos obter rr:

1  (p ∨ q) → r       premissa
2  | p              hipótese
3  | p ∨ q          ∨I, 2
4  | r              →E, 1, 3
5  p → r            →I, 2 a 4

A linha 5 usa a subdedução inteira. Não afirma rr sem condições, afirma que pp permite obter rr.

Depois de fechar a caixa, as linhas 2 a 4 não podem servir como premissas de outro passo exterior. Uma linha exterior pode ser usada dentro de uma caixa, mas uma conclusão de uma caixa fechada só sai através da regra que a fecha. Também não podes usar uma linha de uma caixa irmã.

Provar por casos

Queremos (p∧q)∨(q∧r)⊢q(p\land q)\lor(q\land r)\vdash q. Não sabemos qual dos membros da disjunção é verdadeiro. Provamos que ambos levam a qq:

1  (p ∧ q) ∨ (q ∧ r)    premissa
2  | p ∧ q              hipótese do primeiro caso
3  | q                  ∧E, 2
4  | q ∧ r              hipótese do segundo caso
5  | q                  ∧E, 4
6  q                    ∨E, 1, 2 a 3, 4 a 5

A linha 4 abre uma nova caixa, não fica dentro da primeira. As duas caixas terminam com a mesma fórmula. Não podemos concluir pp, porque só o primeiro caso o garante.

Quando um caso já começa com a conclusão pretendida, podemos repeti-la por RR. Isto permite citar uma subdedução com início e fim explícitos.

Experimentar uma dedução

No editor, altera uma regra ou uma referência da prova por casos e observa o diagnóstico. O separador | --- fecha o primeiro caso antes de abrir o segundo.

Escolhe um exercício para construir uma prova a partir das primeiras linhas. Nos exercícios, as premissas e a conclusão ficam fixas. Em Prova livre, escreve as tuas próprias premissas e conclusão. Só as regras de base desta lição são aceites.

Premissas: (p ∧ q) ∨ (q ∧ r). Conclusão: q.

Edita a prova e verifica as regras e o âmbito das caixas.
Sintaxe e regras aceites

Uma linha tem número, barras de âmbito, fórmula, ponto e vírgula, regra e referências. Exemplo: 3 | q; →E, 1, 2. Também podes separar a fórmula da regra com dois espaços.

Abre uma caixa com | p; hipótese, acrescentando um número de linha. Cada barra acrescenta um nível. Ao retirar uma barra fechas a caixa. Entre caixas irmãs escreve | ---, com tantas barras como a caixa que fechas. O separador não recebe número.

Usa ∧I, ∧E, ∨I, ∨E, →I, →E, FI, FE, ¬I, ¬E e R. Introdução de implicação e negação citam uma caixa, como →I, 2 a 4. Eliminação da disjunção cita a disjunção e duas caixas: ∨E, 1, 2 a 3, 4 a 5. Aqui, ¬E elimina dupla negação.

Nas fórmulas, ~ ou ! representam ¬, & representa ∧, \/ representa ∨ e -> representa →. Usa letras como p ou p1, e F ou ⊥ para contradição. A precedência é negação, conjunção, disjunção, implicação. A implicação associa à direita.

O verificador cobre lógica proposicional clássica com estas regras de base. Não verifica quantificadores nem regras derivadas. Os exercícios são os desta lição, com as premissas e a conclusão fixas. A prova é verificada neste navegador, sem guardar a resposta. Em Prova livre, define as tuas próprias premissas e conclusão.

Negação e contradição

Para provar p→q,¬q⊢¬pp\to q,\neg q\vdash\neg p, assumimos o contrário da negação que queremos introduzir, isto é, pp:

1  p → q         premissa
2  ¬q            premissa
3  | p           hipótese
4  | q           →E, 1, 3
5  | F           FI, 2, 4
6  ¬p            ¬I, 3 a 5

Esta dedução justifica a regra derivada modus tollens, MT. A conclusão é ¬p\neg p, não pp. Para provar uma fórmula positiva pp por absurdo, assumimos ¬p\neg p, obtemos FF, concluímos ¬¬p\neg\neg p por ¬I\neg I e depois pp por ¬E\neg E. Estes dois últimos passos podem abreviar-se por RA quando a redução ao absurdo for permitida.

A partir de FF podemos concluir qualquer fórmula por FEF E. Isso é útil numa prova por casos: se um dos casos contradiz uma premissa, esse caso também permite obter a conclusão comum.

Contraposição e caixas encaixadas

Vamos provar ¬q→¬p⊢p→q\neg q\to\neg p\vdash p\to q. Primeiro introduzimos a implicação. Para obter qq, tentamos uma redução ao absurdo:

1  ¬q → ¬p       premissa
2  | p           hipótese
3  | | ¬q        hipótese
4  | | ¬p        →E, 1, 3
5  | | F         FI, 2, 4
6  | ¬¬q         ¬I, 3 a 5
7  | q           ¬E, 6
8  p → q         →I, 2 a 7

Na linha 6 fechamos só a caixa de ¬q\neg q. A hipótese pp continua aberta até à linha 8. Por isso, a linha 7 ainda depende de pp.

Escolher o próximo passo

Olha primeiro para a conetiva principal da conclusão:

  • Para φ∧ψ\varphi\land\psi, procura uma prova de cada membro e termina com ∧I\land I.
  • Para φ→ψ\varphi\to\psi, assume φ\varphi e procura ψ\psi.
  • Para ¬φ\neg\varphi, assume φ\varphi e procura uma contradição.
  • Para φ∨ψ\varphi\lor\psi, tenta provar um dos membros.

Depois olha para as premissas. Uma conjunção dá informação por ∧E\land E. Uma implicação pede o seu antecedente. Uma disjunção pode obrigar a uma prova por casos. Estes critérios orientam a procura; não são um algoritmo que dispense raciocínio.

Se a prova parece impossível, procura um contraexemplo semântico, porque nenhuma combinação correta das regras prova uma consequência falsa. Por exemplo, de p→qp\to q e qq não conseguimos obter pp: p=F,q=Tp=F,q=T satisfaz as premissas.

Correção e completude

Um sistema é correto se Γ⊢φ\Gamma\vdash\varphi implica Γ⊨φ\Gamma\models\varphi. As regras não permitem passar de premissas verdadeiras a uma conclusão falsa.

É completo se Γ⊨φ\Gamma\models\varphi implica Γ⊢φ\Gamma\vdash\varphi. Toda a consequência semântica tem uma dedução. A DN clássica usada aqui tem as duas propriedades. Isso não significa que encontrar uma prova seja imediato.

A equivalência dedutiva φ⊣⊢ψ\varphi\dashv\vdash\psi exige provas nos dois sentidos. Uma só dedução estabelece apenas uma direção. Para provar ⊢(φ→ψ)∧(ψ→φ)\vdash(\varphi\to\psi)\land(\psi\to\varphi), abre e fecha uma subdedução para cada implicação, depois junta-as com ∧I\land I.

Exercícios

Casos com conclusões diferentes

Prova p∨q,p→r,q→s⊢r∨sp\lor q,p\to r,q\to s\vdash r\lor s com regras de base e notação de Fitch.

Pista

Não podes terminar uma caixa com rr e outra com ss e aplicar diretamente ∨E\lor E.

Mais uma pista

Introduz r∨sr\lor s dentro de cada caixa depois de aplicar a implicação correspondente. No laboratório de dedução, escolhe «Casos diferentes» e completa a prova. A verificação das regras não substitui a explicação de por que os casos chegam à mesma conclusão.

Solução
1  p ∨ q       premissa
2  p → r       premissa
3  q → s       premissa
4  | p         hipótese
5  | r         →E, 2, 4
6  | r ∨ s     ∨I, 5
7  | q         hipótese
8  | s         →E, 3, 7
9  | r ∨ s     ∨I, 8
10 r ∨ s       ∨E, 1, 4 a 6, 7 a 9

Confere a tua resposta:

  • Abri uma caixa para p e outra para q.
  • As duas caixas terminam em r ∨ s.
  • A última linha cita a disjunção e ambas as caixas.

Erros frequentes

∨E\lor E pede a mesma fórmula no fim de ambas as caixas. A disjunção exterior não autoriza escolher apenas o caso que preferimos.

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Negação por contradição

Prova p→q,¬q⊢¬(p∧r)p\to q,\neg q\vdash\neg(p\land r).

Pista

A conclusão é uma negação. Assume a fórmula que está negada.

Mais uma pista

De p∧rp\land r retira pp e usa p→qp\to q. No laboratório de dedução, escolhe «Negação por contradição». O diagnóstico verifica as regras e as caixas; compara depois o raciocínio com a solução.

Solução
1  p → q       premissa
2  ¬q          premissa
3  | p ∧ r     hipótese
4  | p         ∧E, 3
5  | q         →E, 1, 4
6  | F         FI, 2, 5
7  ¬(p ∧ r)    ¬I, 3 a 6

Confere a tua resposta:

  • Assumi p ∧ r numa caixa.
  • Obtive q e uma contradição com ¬q.
  • Fechei a caixa com ¬I.

Erros frequentes

O facto de rr não ser necessário para a contradição não invalida a prova. A hipótese completa é a que se fecha.

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Uma linha fora da caixa

A partir de (p∧q)∨r(p\land q)\lor r, alguém prova p∨rp\lor r por casos e depois usa o qq obtido só na caixa de p∧qp\land q para concluir q∧(p∨r)q\land(p\lor r). Qual é o problema?

A tua resposta

Pista

No caso em que rr vale, sabemos alguma coisa sobre qq?

Mais uma pista

Escolhe r=Tr=T e q=Fq=F. A premissa continua verdadeira.

Solução

A caixa de p∧qp\land q fecha quando aplicamos ∨E\lor E. O seu qq não pode ser usado fora. Com p=F,q=F,r=Tp=F,q=F,r=T, a premissa é verdadeira e q∧(p∨r)q\land(p\lor r) é falsa, confirmando que a conclusão não é consequência.

  • A linha q da caixa fechada já não está acessível.. A conclusão q só foi obtida sob uma hipótese temporária.
  • A introdução de conjunção nunca pode usar uma disjunção.. Pode usar qualquer fórmula já obtida, incluindo uma disjunção.
  • O problema é a ordem das premissas.. Reordenar premissas não altera o seu âmbito.

Erros frequentes

Não basta obter uma fórmula em alguma caixa. É preciso que continue acessível no ponto em que a citamos.

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Distribuição da implicação nos dois sentidos

Prova, com regras de base e Fitch, os dois sentidos de

(p∨q)→r ⊣⊢ (p→r)∧(q→r).(p\lor q)\to r\ \dashv\vdash\ (p\to r)\land(q\to r).

Abre uma dedução por sentido. Não uses a equivalência semântica como regra.

Pista

Uma direção termina numa conjunção de implicações. A outra termina numa implicação cuja hipótese é uma disjunção.

Solução

No primeiro sentido, assumimos cada antecedente separadamente:

1  (p ∨ q) → r       premissa
2  | p              hipótese
3  | p ∨ q          ∨I, 2
4  | r              →E, 1, 3
5  p → r            →I, 2 a 4
6  | q              hipótese
7  | p ∨ q          ∨I, 6
8  | r              →E, 1, 7
9  q → r            →I, 6 a 8
10 (p → r) ∧ (q → r) ∧I, 5, 9

No segundo, a disjunção obriga a obter rr nos dois casos:

1  (p → r) ∧ (q → r) premissa
2  p → r            ∧E, 1
3  q → r            ∧E, 1
4  | p ∨ q          hipótese
5  | | p            hipótese do primeiro caso
6  | | r            →E, 2, 5
7  | | q            hipótese do segundo caso
8  | | r            →E, 3, 7
9  | r              ∨E, 4, 5 a 6, 7 a 8
10 (p ∨ q) → r       →I, 4 a 9

As caixas 5 a 6 e 7 a 8 são irmãs. A equivalência dedutiva exige as duas provas, não apenas a primeira.

Confere a tua resposta:

  • No primeiro sentido construí duas implicações.
  • No segundo sentido usei casos com a mesma conclusão.
  • Citei caixas completas e descarreguei as hipóteses.
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