Quantificadores
Variáveis, tradução com para todo e existe, múltiplos quantificadores e provas.
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A lógica proposicional trata cada frase como um bloco. Mas “todos os alunos sabem programar” fala de objetos individuais e da sua quantidade. Os quantificadores abrem a frase e deixam quantificar sobre objetos: (“para todo”) e (“existe”). Com eles consegues representar quase todo o discurso matemático, das definições de funções às propriedades de relações.
Variáveis e fórmulas bem formadas
Uma variável como não refere nenhum objeto: marca um lugar nos argumentos de um predicado. é uma condição sobre , não uma frase com valor de verdade. Só quando quantificamos a variável, como em , obtemos uma frase que é verdadeira ou falsa.
Uma fórmula onde todas as variáveis estão quantificadas chama-se frase. tem livre e não pode ser avaliada; já pode. Esta distinção importa nas provas: só frases são premissas ou conclusões.
Os dois quantificadores
- : todos os objetos verificam a condição . Em português: “todo”, “cada”, “qualquer”.
- : pelo menos um objeto verifica . Em português: “algum”, “existe”, “há”, “um”.
Repara que não diz “só um”, diz “um ou mais”. “Existe um aluno na sala” continua verdadeiro se houver três.
Os dois padrões de tradução
Quase todas as traduções usam um de dois moldes. Decora-os, porque trocar o molde é o erro mais penalizado:
- Todo o A é B: . O universal combina com o condicional. “Todos os alunos de MDIS estão na sala”: .
- Algum A é B: . O existencial combina com a conjunção. “Algum aluno de MDIS está na sala”: .
Porquê? Testa a combinação errada : ela exige que todos os objetos sejam A, o que é demasiado forte. E é demasiado fraca: basta um objeto que não seja A para o condicional ser vacuamente verdadeiro, por isso a frase diria quase nada. Quando traduzires, pergunta sempre: “esta tradução diz exatamente o que a frase portuguesa diz, nem mais nem menos?”
Negar frases quantificadas
A negação troca os quantificadores:
- . “Nem todos sabem programar” equivale a “existe quem não saiba”.
- . “Não há erros no programa” equivale a “tudo está sem erros”.
Exemplo completo: negar “todos os corvos são pretos”, .
- .
- Como , negar dá : .
- Em português: “existe um corvo que não é preto”. É exatamente o que esperavas: um contraexemplo deita abaixo um “todos”.
Múltiplos quantificadores e a ordem
Com dois quantificadores, a ordem interessa quando eles são diferentes. Compara:
- : “toda a gente gosta de alguém” (o alguém pode variar de pessoa para pessoa).
- : “há alguém de quem toda a gente gosta” (a mesma pessoa para todos).
A segunda implica a primeira, mas não o contrário. Um contraexemplo: duas pessoas e onde cada uma gosta só de si própria. Aí é verdadeira, mas é falsa, porque ninguém é gostado por ambas. Quantificadores iguais podem trocar ( é o mesmo que ); quantificadores diferentes, não.
Forma prenexa e âmbito
Diz-se que uma fórmula está na forma prenexa quando todos os quantificadores estão à frente: , onde não tem quantificadores. Converter para esta forma (empurrando negações para dentro com as leis da secção anterior) ajuda a comparar frases e a preparar provas. O âmbito de um quantificador é a parte da fórmula onde a variável está ligada por ele; fora do âmbito, outra variável com o mesmo nome seria uma variável diferente.
Provas com quantificadores
Há quatro movimentos, dois por quantificador:
- Eliminação do universal: de infere para qualquer objeto . O que vale para todos vale para cada um.
- Introdução do existencial: de para um objeto concreto , infere . Um exemplo basta para um “existe”.
- Instanciação existencial (eliminação do existencial): de , escolhe um nome novo e assume . É como dizer “chamemos-lhe Zé” a um objeto cuja existência já provaste. A condição do nome novo é essencial: não podes reutilizar um nome que já designa outro objeto.
- Prova condicional geral e generalização universal: para provar , escolhe um objeto arbitrário (nome novo), assume e prova . Como podia ser qualquer um, o resultado vale para todos.
Exemplo: o silogismo em forma moderna
Prova que “todos os alunos do terceiro ano sabem programar” segue de “todos os alunos com boa nota a Programação sabem programar” e “todos os alunos do terceiro ano tiveram boa nota a Programação”.
Escreve para “é do terceiro ano”, para “teve boa nota” e para “sabe programar”. As premissas são e .
- Escolhe um aluno arbitrário e assume . (Generalização universal mais prova condicional.)
- Instancia a segunda premissa em : . Com , obténs por modus ponens.
- Instancia a primeira em : . Com , obténs .
- Como era arbitrário e só assumiste , concluis .
Este é o molde da prova condicional geral: arbitrário dentro, universal fora. Reconhecê-lo no enunciado (“para um qualquer…”) diz-te logo que regra usar.
Verdades lógicas com quantificadores
Nem tudo o que parece válido é válido, e a diferença entre tautologia (verdade só pela estrutura booleana) e verdade lógica (verdade em todos os mundos, incluindo pelos quantificadores) cai nos testes. Exemplos para fixar:
- é verdade lógica, mas não é: num mundo com um cubo e um não cubo, a segunda é falsa.
- é tautologia (tem a forma ).
- De e segue , mas de e não segue : o cubo e o pequeno podem ser objetos diferentes.
De volta ao essencial
Traduzir bem é metade da cadeira: o molde universal com e o molde existencial com , a negação que troca por , e a ordem dos quantificadores mistos. Com isto, as definições de relações, funções e congruências passam a ler-se como frases precisas em vez de símbolos decorados.