Centro de massa e momento linear
Sistemas de partículas, distribuições de massa, impulso, colisões e pêndulo balístico.
Dois carrinhos, de e , colidem numa pista horizontal. O primeiro chega a e o segundo está parado. Escolhemos os dois carrinhos como sistema: as forças de contacto são internas. Se o impulso externo horizontal for desprezável durante o choque, o momento total permite relacionar as velocidades antes e depois, sem conhecer a força de contacto instante a instante.
Centro de massa
O momento linear de uma partícula é . O momento total do sistema é a soma vetorial desses momentos. Para partículas de massas e posições , com massa total , o centro de massa é a média ponderada pelas massas:
Duas massas, em e em , têm . A massa maior puxa a média para a sua posição, por isso o centro fica mais perto dela. O centro de massa pode ficar fora do material, como no centro de um aro.
Num corpo contínuo, substituímos a soma por . A escolha de depende da distribuição. Numa haste, ; numa placa, ; num volume, . As densidades linear , superficial e volúmica medem massa por comprimento, área e volume, respetivamente. Em SI usam , e .
Uma haste entre e , com e em , tem mais massa perto da extremidade direita. Corta um segmento fino entre e : a sua massa é . Calculamos primeiro . Depois,
Numa haste uniforme, o centro ficaria em ; a densidade e a geometria são parte do enunciado, por isso não uses o centro geométrico em qualquer corpo.
Ver semiaro uniforme
Num semiaro uniforme de raio situado acima do eixo , a simetria dá . Parametrizando por , cada arco tem massa e altura . Logo
Num semidisco, a distribuição de massa é diferente e este resultado não se aplica.
Uma placa composta trata-se por peças. Calcula o centro de massa de cada retângulo uniforme e combina os resultados como massas pontuais. Para uma placa com recorte, trata o buraco como massa negativa com a mesma densidade. Os três modos, soma de peças, subtração do recorte e integral direto, têm de dar o mesmo resultado.
Na figura, o retângulo completo tem área e centro ; o recorte tem área e centro . A placa restante tem área . Como a densidade é uniforme,
O recorte retira massa sobretudo à direita e acima. Por isso, as duas coordenadas diminuem em relação ao centro do retângulo completo.
Movimento do centro de massa
Para um sistema material de massa constante,
As forças internas cancelam-se pela terceira lei. O centro de massa move-se como um ponto de massa sujeito à resultante externa. Os corpos podem continuar a mover-se relativamente ao centro de massa, ou seja o movimento coletivo não conta a história toda.
Se uma pessoa de andar relativamente a um barco de inicialmente em repouso, sem força horizontal externa, fica constante. Seja o deslocamento do barco relativamente à margem. A pessoa desloca-se . Assim, , dando . A pessoa avança relativamente à margem. Distingue as duas referências, porque os são medidos no barco.
A energia cinética pode separar-se em . A primeira parte descreve o movimento coletivo; a segunda descreve o movimento relativamente ao centro de massa. Numa colisão dissipativa isolada, o movimento do centro de massa mantém-se enquanto diminui.
Impulso e conservação
O impulso é , em . Para um sistema,
O momento total conserva-se quando o impulso externo é nulo. Num impacto breve, o impulso do peso pode ser desprezável face ao impulso de contacto, mesmo que o peso não seja zero. A conservação só vale nas direções onde essa aproximação é justificada, por isso verifica direção a direção.
Uma bola de chega a uma parede com e sai com . O impulso da parede é . Se durar , a força média é . A diferença usa velocidades com sinal, não apenas a diferença das rapidezes.
Colisões em uma dimensão
Durante uma colisão isolada, . As velocidades antes são e depois são , todas no mesmo eixo.
Numa colisão perfeitamente inelástica, os corpos ficam juntos:
Numa colisão elástica, conserva-se também a energia cinética. O momento sozinho não chega para duas velocidades finais desconhecidas. Combinando momento e energia para duas massas em uma dimensão, obtém-se a relação . A rapidez de separação iguala a de aproximação. Resolvendo as duas equações,
Para perceber de onde vem a relação de velocidades, reescreve os balanços de momento e energia como
Fatoriza a diferença de quadrados e divide pela primeira igualdade, quando houve troca de momento. Fica , equivalente à relação anterior. O ramo sem troca, , satisfaz os balanços, mas não representa o choque entre corpos que se aproximam e depois se separam.
Considera a e parado. O momento inicial é e a energia cinética inicial . Se ficarem juntos, e . Os restantes passam a outras formas de energia.
Se o choque for elástico, e . Verificamos e . Só massas iguais trocam simplesmente as velocidades, porque só aí os coeficientes ficam simétricos.
Compara os mesmos dados nos dois modelos: em ambos, o momento total permanece e .
| Choque | Velocidades finais | Energia cinética perdida | |
|---|---|---|---|
| Perfeitamente inelástico | ambos a | ||
| Elástico | , |
A conservação do momento não escolhe entre estes resultados. É a condição sobre o choque que fornece a segunda relação.
Colisões no plano
Escreve uma equação de momento para cada componente. Por exemplo, um corpo de move-se com e outro de com . Se ficarem juntos, . A rapidez é e o ângulo com é . A energia inicial é e a final , porque o choque inelástico dissipa parte da energia relativa.
Uma fragmentação usa a mesma ideia ao contrário. Um corpo parado que explode em dois fragmentos tem momento total nulo, por isso os fragmentos saem em sentidos opostos com . Conhecer uma velocidade final e as massas determina a outra. Com quatro fragmentos, trata cada direção em separado: no exame de 14 de junho de 2023, a vertical fixa a razão entre as duas velocidades verticais e a horizontal reparte a massa restante entre fragmentos de igual rapidez.
Pêndulo balístico
Fase 1, impacto: uma bala de massa fica presa num bloco de massa . Durante o impacto breve, conserva-se o momento horizontal: . Não se conserva a energia cinética. Fase 2, subida: o conjunto sobe altura . Sem perdas, . Misturar as fases, aplicando energia através do impacto, dá uma resposta errada.
Com , e , temos e . A energia antes do impacto era ; logo depois é apenas . A diferença entre esses valores é a energia dissipada no impacto inelástico.
Exercícios
Centro de massa não uniforme
Uma haste ocupa 0 ≤ x ≤ 3 m e tem densidade linear λ(x) = cx, com c positivo. Qual a coordenada do centro de massa, em metros?
Pista
Calcula a massa total antes do primeiro momento, porque a densidade varia com x.
Mais uma pista
M = cL²/2 e integral de x dm = cL³/3.
Solução
X_CM = (cL³/3)/(cL²/2) = 2L/3 = 2 m. Fica mais perto da extremidade onde há mais massa.
Erros frequentes
Usar o ponto médio de uma haste que não é uniforme.
Impulso com ressalto
Uma bola de 0,50 kg move-se em x com +6 m/s e, depois de bater numa parede, sai com −4 m/s. Qual a componente x do impulso da parede, em N·s?
Pista
Impulso é a diferença de momentos com sinal, ou seja atende ao sentido.
Mais uma pista
J_x = m(v_f − v_i) = 0,50(−4 − 6).
Solução
J_x = −5 N·s. O sinal indica impulso contrário ao eixo x positivo.
Erros frequentes
Subtrair apenas as rapidezes, ignorando a inversão do sentido.
Choque perfeitamente inelástico
Um corpo de 2 kg a +4 m/s colide com outro de 3 kg parado e ficam juntos. Sem impulso externo, qual a velocidade final, em m/s?
Pista
Há uma única velocidade final para os dois corpos.
Mais uma pista
Momento inicial = 2 × 4. Massa final = 2 + 3.
Solução
u = 8/5 = 1,6 m/s. A energia cinética passa de 16 J para 6,4 J; 9,6 J deixam de ser energia cinética.
Erros frequentes
Impor conservação da energia cinética num choque em que os corpos ficam juntos.
Resolver um choque com sentidos opostos
Pista
Mais uma pista
Solução
Confere a tua resposta:
- Uso velocidades com sinal no mesmo eixo.
- Obtenho u₁ = −3 m/s e u₂ = +1 m/s.
- Verifico momento total nulo e energia cinética de 6 J antes e depois.
Erros frequentes
Distinguir o deslocamento relativo
Pista
Mais uma pista
Solução
Erros frequentes
Centro de massa de uma placa em L
Uma placa fina de densidade superficial uniforme ocupa o retângulo , , em metros, exceto o recorte , .
Calcula as duas coordenadas do centro de massa de duas formas: soma de dois retângulos sem sobreposição e retângulo completo menos o recorte. Usa a origem no canto inferior esquerdo.
Pista
Solução
Podemos separar a faixa inferior, de área e centro , da peça superior esquerda, de área e centro . A densidade comum cancela na média:
Obtemos e .
O retângulo completo tem área 6 e centro . O recorte tem área 2 e centro . Subtraindo os primeiros momentos,
O resultado é o mesmo, em metros. A área retirada entra com sinal negativo no numerador e no denominador.
Confere a tua resposta:
- Uso área total de 4 m² e ponderação pela área.
- Obtenho CM = (1,25; 0,75) m.
- Confirmo por subtração do recorte com a mesma origem.
Velocidade antes do impacto
Uma bala de fica presa num bloco suspenso de . O conjunto sobe depois do impacto. O impulso externo horizontal durante o impacto é desprezável e não há perdas na subida. Usa . Calcula a rapidez da bala antes do impacto.
Pista
Solução
Na subida conserva-se a energia mecânica: . Portanto, logo após o impacto.
No impacto conserva-se o momento horizontal: . Logo, . A energia cinética passa de antes do impacto para depois. A perda ocorre no impacto, antes da subida; não podemos conservar energia mecânica através de ambas as fases.
Reconstituir quatro fragmentos
Um corpo de , inicialmente parado, fragmenta-se durante um intervalo em que o impulso externo é desprezável. Um fragmento de sai verticalmente para cima a e outro de sai verticalmente para baixo. Os restantes saem horizontalmente, em sentidos opostos, ambos a .
Determina a velocidade do fragmento de e as massas dos dois fragmentos horizontais. A energia cinética final tem de ser nula, por o corpo começar parado?
Pista
Solução
Com vertical positiva para cima, , logo para baixo. Na horizontal, , portanto . A massa restante é : cada um tem .
O momento total final é nulo, mas a energia cinética não. É . Uma libertação de energia interna pode aumentar a energia cinética sem alterar o momento total. Impulso externo desprezável não implica energia cinética conservada.
Confere a tua resposta:
- Obtenho 8 m/s para o fragmento de 2 kg.
- Uso o momento horizontal para concluir que os restantes têm massas iguais de 3 kg.
- Distingo conservação do momento de conservação da energia cinética.
Uma força muda apenas uma componente
Uma partícula de tem velocidade inicial . Durante , a única força resultante é constante e vale . Determina o impulso, a velocidade final, a rapidez final e a variação da energia cinética.
Pista
Solução
O impulso é . O momento inicial é , logo o final é . Dividindo pela massa, e .
A energia passa de para . A variação é . Embora a força seja perpendicular à velocidade inicial, deixa de o ser quando surge a componente horizontal. Faz trabalho: o deslocamento horizontal é e .
Confere a tua resposta:
- Obtenho o impulso (6, 0) N·s.
- Obtenho momento final (6, 8) kg·m/s e velocidade (3, 4) m/s.
- Calculo rapidez de 5 m/s e aumento de energia cinética de 9 J.