Conteúdos da cadeira

Rotação de corpos rígidos

Torque, momento de inércia, segunda lei da rotação, rolamento sem deslizamento e conservação do momento angular.

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Um corpo rígido não é um ponto: pode girar sobre si mesmo enquanto o seu centro de massa se desloca. Esta página trata da rotação em torno de um eixo fixo, onde cada conceito de translação tem um análogo rotacional: força vira torque, massa vira momento de inércia e momento linear vira momento angular.

Torque

O torque (ou momento de uma força) mede a tendência de uma força para provocar rotação em torno de um ponto. Para uma força F\vec{F} aplicada num ponto deslocado de r\vec{r} em relação ao eixo,

τ=r×F,τ=rFsinϕ,\vec{\tau} = \vec{r} \times \vec{F}, \qquad \tau = rF\sin\phi,

em N⋅m\text{N·m}, onde ϕ\phi é o ângulo entre r\vec{r} e F\vec{F}. O torque é máximo quando a força é perpendicular ao braço (sinϕ=1\sin\phi = 1) e nulo quando a linha de ação passa pelo eixo. É por isso que a maçaneta fica longe das dobradiças: maior rr, maior torque para a mesma força.

Momento de inércia

O momento de inércia II, em kg⋅m2\text{kg·m}^2, mede a resistência do corpo à mudança de rotação, tal como a massa mede a resistência à mudança de translação. Depende da massa e de como ela se distribui em torno do eixo: massa longe do eixo conta mais. Três valores a decorar:

  • barra fina de massa MM e comprimento LL, eixo pelo centro: I=ML2/12I = ML^2/12;
  • disco sólido de massa MM e raio RR, eixo pelo centro: I=MR2/2I = MR^2/2;
  • anel fino de massa MM e raio RR, eixo pelo centro: I=MR2I = MR^2.

Repara na progressão: para a mesma massa e o mesmo raio, o anel tem o dobro da inércia do disco, porque toda a sua massa está à distância máxima. Quando o eixo não passa pelo centro de massa, o teorema dos eixos paralelos soma Md2Md^2, onde dd é a distância entre os eixos: I=ICM+Md2I = I_{\text{CM}} + Md^2.

Segunda lei da rotação

Para um eixo fixo, a segunda lei de Newton toma a forma rotacional:

τ=Iα,\sum \tau = I\alpha,

onde α=dω/dt\alpha = d\omega/dt é a aceleração angular em rad/s2\text{rad/s}^2. O ângulo θ\theta, a velocidade angular ω\omega e a aceleração angular α\alpha relacionam-se por derivação e integração exatamente como posição, velocidade e aceleração na cinemática.

Exemplo completo: cilindro a rolar pelo plano

Um cilindro sólido de massa M=4,0 kgM = 4{,}0\ \text{kg} e raio R=0,20 mR = 0{,}20\ \text{m} rola sem deslizar por um plano inclinado de ângulo θ=30\theta = 30^{\circ} e comprimento L=2,0 mL = 2{,}0\ \text{m}, partindo do repouso. Com que velocidade chega ao fundo?

O diagrama de corpo livre tem o peso MgM\vec{g} no centro, a normal e o atrito estático no ponto de contacto. Pode parecer estranho haver atrito sem deslizamento, mas é o atrito estático que impede o deslizamento e fornece o torque que põe o cilindro a girar. A condição de rolamento sem deslizamento liga translação e rotação: v=ωRv = \omega R e a=αRa = \alpha R.

Combinando a segunda lei para o centro de massa com a segunda lei da rotação em torno do centro, obtém-se

a=gsinθ1+I/(MR2).a = \frac{g\sin\theta}{1 + I/(MR^2)}.

Para o cilindro sólido, I=MR2/2I = MR^2/2, logo I/(MR2)=1/2I/(MR^2) = 1/2 e a=gsinθ/1,5a = g\sin\theta/1{,}5. Com os números, a=9,8×0,50/1,5=4,90/1,53,27 m/s2a = 9{,}8 \times 0{,}50/1{,}5 = 4{,}90/1{,}5 \approx 3{,}27\ \text{m/s}^2. Com partida do repouso ao longo de L=2,0 mL = 2{,}0\ \text{m}, v2=2aL=2×3,27×2,0=13,08v^2 = 2aL = 2 \times 3{,}27 \times 2{,}0 = 13{,}08, logo v3,6 m/sv \approx 3{,}6\ \text{m/s}.

Vale comparar com o bloco a deslizar sem atrito da página das leis de Newton, que desceria com a=4,9 m/s2a = 4{,}9\ \text{m/s}^2 e chegaria a v=2×4,90×2,0=19,64,4 m/sv = \sqrt{2 \times 4{,}90 \times 2{,}0} = \sqrt{19{,}6} \approx 4{,}4\ \text{m/s}. O cilindro chega mais devagar porque parte da energia potencial se converte em energia cinética de rotação, Iω2/2I\omega^2/2, em vez de ir toda para a translação. E um anel, com I/(MR2)=1I/(MR^2) = 1, seria ainda mais lento: a=4,90/2=2,45 m/s2a = 4{,}90/2 = 2{,}45\ \text{m/s}^2.

Momento angular e a sua conservação

O momento angular em torno de um eixo fixo é L=IωL = I\omega, em kg⋅m2/s\text{kg·m}^2\text{/s}. Tal como a força é a taxa de variação do momento linear, o torque é a taxa de variação do momento angular: τ=dL/dt\sum \tau = dL/dt. Sem torque externo, o momento angular conserva-se, mesmo que o corpo mude de forma.

O exemplo clássico é a patinadora: com os braços abertos, I1=3,0 kg⋅m2I_1 = 3{,}0\ \text{kg·m}^2 e ω1=3,0 rad/s\omega_1 = 3{,}0\ \text{rad/s}, logo L=9,0 kg⋅m2/sL = 9{,}0\ \text{kg·m}^2\text{/s}. Ao fechar os braços, o momento de inércia cai para I2=1,2 kg⋅m2I_2 = 1{,}2\ \text{kg·m}^2 e a velocidade angular sobe para ω2=L/I2=9,0/1,2=7,5 rad/s\omega_2 = L/I_2 = 9{,}0/1{,}2 = 7{,}5\ \text{rad/s}. A energia cinética de rotação passa de 3,0×9,0/2=13,5 J3{,}0 \times 9{,}0/2 = 13{,}5\ \text{J} para 1,2×56,25/2=33,75 J1{,}2 \times 56{,}25/2 = 33{,}75\ \text{J}. A energia aumentou porque os músculos realizaram trabalho interno, mas o momento angular manteve-se, porque ninguém aplicou torque externo.

Para onde ir

Falta um tipo de movimento onde a segunda lei aparece em todo o seu esplendor diferencial: as oscilações.

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