A lei de Faraday diz que B a variar cria E, e a corrente de deslocamento diz que E a variar cria B. Junta as duas num vazio sem cargas nem correntes e obténs uma dança auto-sustentada: cada campo a variar gera o outro, e a perturbação propaga-se. É uma onda eletromagnética, e a luz é um caso particular dela.
A velocidade sai das constantes
No vazio, as equações de Maxwell combinam-se numa equação de onda para E (e outra igual para B):
∇2E=μ0ε0∂t2∂2E.
Comparando com a equação geral de uma onda que se propaga à velocidade v, ∇2u=(1/v2)∂2u/∂t2, a velocidade de propagação é
A velocidade da luz calculada a partir de constantes medidas em experiências de eletrostática e magnetostática. Foi este acordo numérico que convenceu Maxwell de que a luz é uma onda eletromagnética, antes de alguém a conseguir gerar ou detetar.
Estrutura da onda plana
Numa onda plana que se propaga segundo x com frequência angular ω e número de onda k=ω/c:
E e B são perpendiculares entre si e ambos perpendiculares à direção de propagação (onda transversal).
Oscilam em fase: Ey=E0cos(kx−ωt) e Bz=B0cos(kx−ωt).
As amplitudes relacionam-se por E0=cB0.
O comprimento de onda é λ=c/f. A luz visível ocupa apenas a fatia de cerca de 400 a 700nm de um espectro que vai das ondas de rádio (quilómetros) aos raios gama (picómetros). O Wi-Fi aos 2,4GHz tem λ=c/f≈12,5cm, e é por isso que a posição do router e dos obstáculos à escala do decímetro afeta o sinal.
Polarização e energia
A polarização é a direção de oscilação de E: se for sempre a mesma reta, a luz é linearmente polarizada; se rodar, é circular ou elíptica. Os óculos de sol polarizados bloqueiam uma das direções e cortam metade da luz refletida, que chega parcialmente polarizada.
A onda transporta energia, descrita pelo vetor de Poynting S=E×B/μ0, com a média temporal para uma onda sinusoidal
I=⟨S⟩=21cε0E02.
Para E0=600V/m: I=0,5×2,998×108×8,854×10−12×6002. Como 2,998×108×8,854×10−12≈2,654×10−3 e 6002=360000, vem I≈0,5×955,6≈478W/m2. É cerca de metade da irradiância solar à superfície num dia limpo (perto de 1000W/m2), uma verificação de plausibilidade: um campo de centenas de V/m corresponde a intensidades solares, não a uma lâmpada de secretária.
Para onde ir
Até aqui, campos no espaço livre. Nos circuitos resistivos esses campos ficam confinados a fios e componentes, e as equações de Maxwell reduzem-se às leis de Ohm e de Kirchhoff.