Design centrado no utilizador
PACT, investigação, requisitos verificáveis, personas, cenários, tarefas e modelo conceptual.
Três participantes alternam entre mensagens do grupo e o catálogo de salas para confirmar se cabe toda a gente. Este dado fictício sustenta uma necessidade de coordenação, mas ainda não decide qual solução construir.
Ciclo de design centrado no utilizador
Identificamos pessoas, atividades e contexto; traduzimos necessidades em requisitos; exploramos alternativas; construímos protótipos; avaliamos e refinamos, pois a avaliação pode obrigar a rever uma necessidade ou um conceito, não apenas a cor do botão.
Analisar PACT antes de propor soluções
Começa pela situação atual. Em Pessoas, considera objetivos, conhecimentos, capacidades e diferenças relevantes. Em Atividades, observa frequência, duração, complexidade, cooperação e consequências de erros. Em Contextos, inclui ambiente físico, relações sociais e regras da organização. Em Tecnologias, identifica entradas, saídas, comunicação e ferramentas usadas.
No exemplo de reserva, o objetivo é trabalhar em grupo. Consultar horários, perguntar no chat e confirmar a sala são atividades atuais. O ruído de um corredor é contexto físico; a negociação entre colegas é contexto social; a regra de duração máxima é contexto organizacional. Um telemóvel, um calendário partilhado e o chat são tecnologias atuais.
A análise não deve começar por “vamos ter um filtro e um mapa”, porque isso descreve uma solução futura; só depois de compreender as atividades discutimos se filtros, mapa ou outra alternativa as apoiam.
Um problema de design descreve a situação indesejada, as pessoas afetadas e a consequência, deixando espaço a alternativas: “Os estudantes não conseguem encontrar uma sala adequada antes da reunião” enquadra um problema, enquanto “Falta uma app com três botões” assume uma solução antes da investigação.
Da observação ao requisito
A observação é a alternância entre catálogo e chat. A necessidade interpretada é coordenar capacidade e horário sem perder informação.
| Etapa | Resultado do exemplo |
|---|---|
| Evidência | As pessoas consultam a capacidade e voltam ao chat para confirmar o tamanho do grupo |
| Necessidade | Encontrar uma sala adequada ao grupo num horário comum |
| Requisito funcional | Filtrar salas por capacidade mínima e disponibilidade |
| Requisito de usabilidade | Num teste definido, pelo menos 8 de 10 participantes representativos encontram uma opção válida em até 60 s sem ajuda |
| Verificação | Observar sucesso e tempo nessa tarefa com o protótipo |
O critério de 8/10 e 60 s é uma escolha deste exemplo, não uma norma da cadeira: explicita população, contexto, tarefa, medida e limiar. “Fácil de usar” não define um teste de aceitação.
Lê o esquema de cima para baixo. No teste com o protótipo, regista o sucesso e o tempo de cada participante e compara-os com o critério definido.
Personas
Uma persona sintetiza padrões relevantes de objetivos, necessidades, contexto e comportamentos. Cada traço precisa de rastreabilidade aos dados.
Não é uma pessoa real nem a média demográfica de toda a amostra. Uma persona baseada em investigação precisa dessa ligação aos dados. Uma proto-persona regista hipóteses iniciais que ainda precisam de investigação.
No nosso caso, Mariana, coordenadora de grupo, estuda à noite, organiza reuniões semanais de cinco pessoas e alterna entre o chat e o catálogo porque perde o tamanho do grupo de vista. O seu objetivo é encontrar uma opção aceitável para o grupo; “usar filtros” não é objetivo, é uma solução possível. Cada traço liga-se a uma observação: a alternância sustenta a necessidade de comparar sem perder informação.
Não acrescentes limitações, preferências ou resultados de entrevistas que não observaste. Uma pessoa que reserva raramente pode precisar de rever as condições em cada utilização; outra que coordena o grupo todas as semanas pode precisar de repetir uma reserva. Frequência de uso e conhecimento da tarefa são dimensões diferentes, pois uma pessoa experiente em organizar reuniões pode usar esta aplicação pela primeira vez.
Uma persona primária orienta as decisões principais do desenho, enquanto uma secundária tem necessidades adicionais que procuramos apoiar sem prejudicar as da primária. Esta prioridade precisa de justificação no âmbito do projeto; não significa que os restantes públicos possam ficar sem acesso.
Para relacionar a persona com dados observados e necessidades concretas, sintetiza padrões de investigação como explicado em sintetizar por afinidades.
Cenários e tarefas
Um cenário descreve uma situação, o objetivo, o contexto e uma sequência significativa: “A Mariana tem uma hora livre amanhã, recebe confirmação de quatro colegas e procura uma sala para cinco pessoas” descreve a necessidade sem obrigar a um widget.
Podemos distinguir cenários as-is, que descrevem a atividade atual, e to-be, que exploram a atividade com uma proposta futura: no cenário atual, a Mariana alterna entre chat e catálogo, enquanto no futuro partilha uma opção com o grupo e recebe confirmação no mesmo lugar. Mantém clara essa diferença, pois uma narrativa futura não é evidência de que o fluxo já foi observado.
Journey Map
Uma jornada mostra a atividade ao longo do tempo, incluindo o que acontece fora do ecrã. Para Mariana, o cenário atual é organizar uma reunião de cinco pessoas amanhã das 14 às 15, onde espera encontrar uma sala adequada e saber que a reserva ficou registada; as notas fictícias permitem construir o mapa seguinte.
| Etapa | Ação e ponto de contacto | Motivo | Relato ou dificuldade |
|---|---|---|---|
| Combinar | Pergunta a disponibilidade no chat | Encontrar uma hora comum | “Ainda falta a resposta de um colega” |
| Procurar | Consulta horário e capacidade no catálogo | Encontrar uma sala para cinco | Volta ao chat para conferir o tamanho do grupo |
| Reservar | Envia o pedido no serviço da biblioteca | Garantir a sala escolhida | “Não percebi se ficou reservado” |
| Verificar | Consulta a notificação e pergunta ao colega | Reconhecer o resultado | “A notificação não dizia a sala” |
A linha temporal permite localizar problemas diferentes: coordenação antes da escolha e reconhecimento do estado depois do pedido. O esquema destaca as idas e voltas entre chat e catálogo que o mapa explica.
O modelo docente distingue o que a pessoa faz, pensa e diz. Um pensamento ou emoção precisa de evidência ou de uma marca de hipótese: não deduzimos ansiedade apenas de um clique repetido. No nosso mapa, as frases são relatos fictícios e a necessidade de confirmação é uma interpretação. Num estudo real, conserva a ligação às notas que sustentam cada célula.
Uma oportunidade é tornar o estado da reserva reconhecível com sala e horário, o que não prova que o serviço deva juntar chat e catálogo numa única aplicação; compara alternativas para o problema identificado e avalia-as.
Uma tarefa de avaliação deve indicar um resultado específico, representativo e verificável, como “Encontra e reserva uma sala para cinco pessoas amanhã entre as 14 e as 15”, enquanto “Carrega no filtro Capacidade e depois em Confirmar” ensina o percurso e impede avaliar se a pessoa o descobriria.
A análise de tarefas decompõe objetivos em subtarefas e planos: para reservar, obter restrições, procurar opções, comparar, escolher e confirmar. O plano pode voltar a comparar se a primeira opção ficar indisponível; não deve fingir que todas as tarefas são lineares.
Uma história de utilizador resume necessidade e valor numa frase, como “enquanto coordenadora, quero filtrar por capacidade para encontrar uma sala para o grupo”. Um storyboard representa momentos com imagens; o formato serve a relação que queremos comunicar.
Ideação e modelo conceptual
Gera alternativas antes de escolher. Para coordenar a reunião de Mariana, podemos comparar:
| Alternativa | Necessidade que pode apoiar | Custo ou hipótese a verificar |
|---|---|---|
| Partilhar uma opção com capacidade e horário | Comparar sem perder os dados da sala | O grupo ainda precisa de concordar fora do catálogo |
| Votar entre opções partilhadas | Reunir preferências do grupo | Todos precisam de participar; a votação pode atrasar uma reserva urgente |
| Sugerir horários comuns a partir dos calendários | Evitar negociar cada intervalo | Exige acesso a calendários e decisões de privacidade que a investigação não validou |
A terceira ideia parece automatizar mais, mas depende de informação que ainda não sabemos se as pessoas aceitariam fornecer, por isso podemos começar por testar a partilha de opções e observar se reduz o retorno ao catálogo. A escolha é uma hipótese sustentada pelo problema e pelos custos, não pelo número de funcionalidades.
Gerar e selecionar alternativas
Na ideação, separa a geração da seleção. Primeiro, cada pessoa esboça propostas em paralelo, sem interromper ou votar em cada ideia. Depois, partilham e comparam-nas segundo o problema, as necessidades e as hipóteses que será preciso testar. Começar logo pela proposta de quem fala primeiro reduz as alternativas consideradas.
O Crazy 8 é uma técnica de esboço individual: oito ideias distintas em oito minutos. O limite ajuda a sair da primeira solução; mudar apenas a cor do mesmo botão não explora oito formas de resolver o problema. Os desenhos precisam de comunicar a proposta, não de parecer um produto final.
Para a dificuldade de coordenação, uma folha pode explorar partilha de opções, comparação lado a lado, votação, repetição de uma reunião e aviso de disponibilidade. Cada proposta tem de dizer que parte da necessidade apoia e que informação exige. A votação pode ser útil para um grupo flexível, mas um aviso pode servir melhor quem precisa de uma sala imediatamente. Descartar ou combinar ideias exige essa justificação, não só contar votos.
Um design sprint organiza um período curto de compreensão do desafio, exploração, escolha, prototipagem e teste. O Crazy 8 pode integrar esse processo, mas não o substitui. Um teste do protótipo reduz incerteza sobre a proposta; não transforma a preferência da equipa em evidência de uso nem demonstra que o produto final está validado.
Modelo conceptual
O modelo conceptual pode definir os objetos Grupo, Sala, Intervalo e Reserva: uma Sala tem capacidade, uma Reserva liga grupo, sala e intervalo, e uma reserva provisória pode expirar. Estas relações precisam de ser compreensíveis antes de decidir cores ou tabelas da base de dados.
| Objeto | Informação | Ações e relações |
|---|---|---|
| Grupo | Número de pessoas | Procura uma sala com capacidade suficiente |
| Sala | Capacidade e disponibilidade | Pode receber reservas em intervalos livres |
| Reserva | Grupo, sala, intervalo e estado | Criar, consultar e cancelar segundo as regras |
“Escolher uma sala” é uma ação do domínio, enquanto “premir o botão verde” descreve a interface: o primeiro conceito mantém-se se mudarmos de toque para voz, mas o segundo depende de uma implementação particular.
Um storyboard representa a sequência em contexto e um wireframe a estrutura de ecrãs; ambos podem comunicar uma proposta, mas não substituem a evidência da necessidade.
Exercícios
Fácil de reservar
Transforma “a aplicação deve ser fácil de reservar” num requisito de usabilidade verificável para estudantes que reservam uma sala pela primeira vez. Declara os teus limiares como escolhas do exemplo.
Pista
Que resultado é correto e em que condições o observamos?
Solução
Exemplo: num teste em telemóvel com dez estudantes sem uso anterior, pelo menos oito reservam a sala e horário indicados sem ajuda em até 60 s. Os números são uma proposta a justificar, ou seja, regista também falhas e barreiras; o critério não garante todos os públicos.
Confere a tua resposta:
- Identifica população, tarefa e contexto.
- Define sucesso e ajuda permitida.
- Inclui medida e limiar verificáveis, sem os atribuir à cadeira.
Erros frequentes
“Em poucos cliques” continua indefinido se não houver tarefa, contagem e condição.
Do cenário ao Journey Map
Num caso fictício, Leonor coordena uma reunião de cinco pessoas amanhã às 14h. Pergunta horários no chat, consulta a capacidade no catálogo, volta ao chat porque um colega ainda não respondeu e envia a reserva. A notificação não identifica a sala; Leonor diz “tenho de perguntar ao balcão para ter a certeza”.
Constrói um cenário da atividade atual e um mapa com etapas, pontos de contacto, motivos e dificuldades. Indica uma oportunidade e uma tarefa de avaliação que não ensine cliques. A equipa escreveu “Leonor sente ansiedade em todas as etapas”. Que evidência falta?
Pista
Um ponto de contacto pode estar fora da aplicação.
Solução
O cenário acompanha Leonor a coordenar cinco pessoas para a reunião. No mapa: combinar horários no chat para achar uma hora comum; consultar capacidade no catálogo para acomodar o grupo; voltar ao chat por uma resposta em falta; enviar o pedido; verificar a notificação; procurar o balcão por não conseguir confirmar a sala. O motivo do retorno ao chat é distinto do motivo da consulta ao balcão.
Uma oportunidade é tornar reconhecível a sala efetivamente reservada. Uma tarefa possível é “Reserva uma sala para cinco pessoas amanhã entre as 14 e as 15 e indica qual ficou reservada”. Não pede para carregar em botões determinados. A afirmação sobre ansiedade precisa de relatos ou outra evidência adequada; pode ser uma hipótese a investigar, mas não um facto deduzido do percurso.
Confere a tua resposta:
- Mantém objetivo e contexto e separa a atividade atual de uma proposta futura.
- Liga chat, catálogo, notificação e balcão a ações e motivos específicos.
- Deriva uma oportunidade e uma tarefa verificável sem ensinar o percurso.
- Não apresenta emoções não observadas como resultados.
Uma persona sem dados
Em quatro observações, duas pessoas coordenam horários por chat e duas reservam individualmente sempre à mesma hora. A equipa cria uma única persona, “Estudante de 21 anos que adora mapas e usa reconhecimento de voz”, sem ter observado essas preferências. Revê a proposta.
Pista
Que informação é sustentada pelas observações?
Solução
Podemos explorar dois padrões: coordenar uma opção comum e repetir uma reserva individual. Cada persona deve indicar objetivos, contexto e comportamentos rastreáveis; precisamos de mais investigação para validar a sua relevância. Preferir mapas ou voz é uma hipótese de proto-persona. Uma proposta para o primeiro padrão é comparar e partilhar opções; depois avalia se isso ajuda o grupo. Não inferimos que metade da população segue cada padrão.
Confere a tua resposta:
- Identifica as preferências inventadas como hipóteses, não resultados de investigação.
- Usa os padrões de comportamento relevantes sem presumir frequência na população.
- Liga a persona a um objetivo e a uma decisão de desenho que ainda será avaliada.
Erros frequentes
Não converter quatro observações numa distribuição populacional. Uma persona pode ter um nome fictício, mas as decisões não devem depender de preferências apresentadas como factos sem evidência.
Do chat ao problema de desenho
Observaste estudantes que coordenam reuniões de grupo com horários variáveis. Alternam entre chat e catálogo para comparar capacidade e disponibilidade; fazem-no no corredor ruidoso, com telemóvel e calendário partilhado. Perdem uma opção ao voltar ao catálogo.
Organiza estes dados em PACT e formula o problema de desenho sem assumir que a solução é um filtro ou uma nova aplicação.
Solução
Pessoas: estudantes que coordenam grupos com horários variáveis. Atividades: comparar opções e combinar horários, alternando entre ferramentas. Contextos: corredor ruidoso e negociação entre colegas. Tecnologias: telemóvel, chat, catálogo e calendário partilhado.
Problema possível: ao coordenar a reunião, os estudantes perdem opções enquanto comparam horário e capacidade entre ferramentas, tendo de repetir a procura. Um filtro pode ser uma proposta, mas não pertence à descrição da situação atual.
Confere a tua resposta:
- Identifica pessoas e atividade cooperativa com base no enunciado.
- Distingue ruído e negociação de telemóvel, catálogo, chat e calendário.
- Formula a perda de informação e a sua consequência sem escolher a solução.
Oito desenhos da mesma solução
Estudantes perdem opções de salas quando voltam ao chat para combinar horários. No primeiro minuto da ideação, a equipa escolhe a proposta de quem coordena o grupo. Cada colega desenha depois duas cores desse mesmo ecrã, e chamam aos oito desenhos Crazy 8. Declaram a solução validada porque recebeu mais votos.
Revê o procedimento. Propõe duas estratégias diferentes para a necessidade e explica que hipótese testarias antes de selecionar uma delas.
Pista
Solução
As cores variam o aspeto, mas mantêm a estratégia e a seleção antecipada. No Crazy 8, cada pessoa esboça oito ideias distintas em oito minutos; gera-as individualmente antes de a equipa discutir e selecionar. Não interromper nem escolher cedo permite comparar mais soluções.
Uma estratégia é guardar e partilhar opções com capacidade e horário, para que o grupo as confira sem perder a pesquisa. Outra é recolher disponibilidade do grupo antes de procurar, reduzindo opções incompatíveis. A primeira pressupõe que o grupo consegue decidir a partir das opções partilhadas; a segunda depende de conseguir recolher os horários sem atrasar uma reserva urgente.
Podemos prototipar as duas e pedir ao grupo que encontre uma sala aceitável para cinco pessoas no intervalo indicado. Registamos idas e voltas, perdas de informação, sucesso e tempo sob condições comparáveis. Votar na equipa seleciona uma proposta para investigar; não valida o uso nem prova que as hipóteses são verdadeiras.
Confere a tua resposta:
- Distingue variações de aspeto de alternativas para a necessidade.
- Propõe geração individual antes da seleção e explicita duas estratégias diferentes.
- Liga a escolha a uma hipótese e a uma tarefa que a possa investigar.
