Aplicações lineares
Definição, núcleo e imagem, teorema das dimensões e representação matricial.
Nesta página
Uma aplicação linear (ou transformação linear) é uma função entre espaços vetoriais que respeita as operações: preserva somas e múltiplos escalares. Rotações, projeções, reflexões e derivação de polinómios são exemplos. A recompensa desta abstração é que cada aplicação linear corresponde a uma matriz, e todas as perguntas sobre a função passam a ser contas com essa matriz.
Definição e primeiro teste
Uma função entre espaços vetoriais é linear quando, para todos e escalares ,
Isto equivale às duas condições separadas, e , mas a versão junta é mais rápida de verificar.
O teste mais rápido de todos: se , a aplicação não é linear. Por exemplo, não é linear porque . Atenção ao recíproco: não chega para provar linearidade, apenas elimina os casos óbvios. Um exemplo que passa no teste do zero e mesmo assim falha: , porque .
Um exemplo que funciona: dada por . Verifica com , e escalares : cada coordenada do resultado é uma expressão linear, logo a soma e os escalares saem para fora sem obstáculos. Vais usá-lo ao longo da página.
Núcleo, imagem e o teorema das dimensões
O núcleo (ou kernel) de é o conjunto dos vetores que envia para zero:
É sempre um subespaço do domínio. Para o exemplo, dá , e , logo e : o núcleo é só .
A imagem de é o conjunto dos valores atingidos, , um subespaço do espaço de chegada. No exemplo, , por isso a imagem é gerada por e , dois vetores independentes: é um plano em .
O teorema das dimensões (ou teorema núcleo-imagem) liga as duas:
Aqui, . Confirmado. Este teorema responde a perguntas de existência sem contas: uma aplicação linear de em nunca é sobrejetiva, porque a imagem tem dimensão no máximo 2.
O núcleo decide a injetividade: é injetiva exatamente quando . A imagem decide a sobrejetividade: é sobrejetiva exatamente quando . O exemplo é injetivo mas não sobrejetivo. Quando o domínio e o contradomínio têm a mesma dimensão, basta verificar uma das duas: injetiva equivale a sobrejetiva (e ambas a “o núcleo é trivial”).
Representação matricial
Fixadas bases no domínio e no espaço de chegada, cada aplicação linear descreve-se por uma matriz: a coluna é a imagem do -ésimo vetor da base do domínio, escrita em coordenadas na base de chegada. Com as bases canónicas, basta aplicar aos versores.
Para o exemplo : e . A matriz é
e aplicar é multiplicar: . Confirma com : a matriz dá , igual à fórmula direta.
Duas consequências práticas. A composta de aplicações corresponde ao produto das matrizes (pela ordem certa: a matriz de é ). E é invertível (isomorfismo) exatamente quando a matriz é quadrada e invertível; nesse caso, a matriz da inversa é a inversa da matriz.
O núcleo de é o conjunto das soluções do sistema homogéneo , e a imagem é o espaço gerado pelas colunas de . Por isso a característica da matriz dá , e o teorema das dimensões mais não é do que “variáveis livres mais pivôs igual ao número de incógnitas” com outro nome.
Um endomorfismo completo
Considera com . A matriz canónica é , de determinante . Logo é invertível, o núcleo é trivial e a imagem é todo o : injetiva e sobrejetiva. A inversa obtém-se invertendo a matriz:
Verifica com : , e . Fechou o ciclo.
O que costuma correr mal
- Concluir linearidade só porque . É condição necessária, não suficiente: testa sempre a soma e o produto por escalar, com um contraexemplo concreto se suspeitares.
- Construir a matriz da aplicação com as imagens em linha em vez de coluna, ou trocar a ordem do produto na composta .
- Misturar bases: a matriz canónica só vale para as bases canónicas dos dois lados. Com outras bases, precisas das matrizes de mudança de base (próxima página).
- Esquecer que injetividade é sobre o núcleo e sobrejetividade sobre a imagem, e tentar prová-las diretamente com quantificadores quando o teorema das dimensões resolve em duas linhas.