Conteúdos da cadeira

Espaços vetoriais, bases e dimensão

Subespaços, independência linear, bases, dimensão e coordenadas, tudo em R elevado a n.

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Até aqui trabalhámos com contas. Esta página muda o ponto de vista: em vez de olhar para os números, olhamos para a estrutura do conjunto onde vivem as soluções. As noções de subespaço, independência linear, base e dimensão são o vocabulário com que o resto da cadeira se exprime, das aplicações lineares aos valores próprios.

O espaço R elevado a n

O conjunto Rn\mathbb{R}^n contém todos os nn-tuplos de números reais, (x1,x2,,xn)(x_1, x_2, \dots, x_n), com soma e produto por escalar feitos coordenada a coordenada. Para n=2n = 2 são os pontos do plano, para n=3n = 3 os do espaço. Um espaço vetorial (também chamado espaço linear) é qualquer conjunto com uma soma e um produto por escalar que obedecem às mesmas regras: associatividade, comutatividade, elemento neutro, simétricos, e as quatro regras que ligam a soma ao produto por escalar. Rn\mathbb{R}^n é o exemplo que interessa nesta cadeira, e todos os resultados vão ser aplicados nele.

Subespaços: conjuntos fechados para as operações

Um subespaço FF de Rn\mathbb{R}^n é um subconjunto não vazio tal que:

  1. se u,vFu, v \in F, então u+vFu + v \in F;
  2. se uFu \in F e kRk \in \mathbb{R}, então kuFku \in F.

Ou seja, consegues somar e multiplicar por escalares sem sair do conjunto. Todo o subespaço contém o vetor nulo (basta fazer 0u0 \cdot u).

Exemplo: a reta y=2xy = 2x no plano é um subespaço de R2\mathbb{R}^2. Somando (a,2a)+(b,2b)=(a+b,2(a+b))(a, 2a) + (b, 2b) = (a+b, 2(a+b)) continuas na reta, e o mesmo vale para múltiplos. Já a reta y=2x+1y = 2x + 1 não é subespaço: nem sequer contém (0,0)(0, 0).

A interseção de subespaços é sempre um subespaço. A união, em geral, não é: a união dos dois eixos coordenados em R2\mathbb{R}^2 contém (1,0)(1, 0) e (0,1)(0, 1) mas não a soma (1,1)(1, 1). Para juntar subespaços usa-se a soma F+G={u+v:uF,vG}F + G = \{u + v : u \in F, v \in G\}.

Independência linear

Um conjunto de vetores {v1,v2,,vk}\{v_1, v_2, \dots, v_k\} é linearmente independente quando a única combinação linear que dá o vetor nulo é a trivial:

α1v1+α2v2++αkvk=0    α1=α2==αk=0.\alpha_1 v_1 + \alpha_2 v_2 + \dots + \alpha_k v_k = 0 \implies \alpha_1 = \alpha_2 = \dots = \alpha_k = 0.

Se existir uma combinação não trivial, os vetores são linearmente dependentes: pelo menos um deles escreve-se como combinação dos outros.

Testa {u1=(1,0),u2=(1,1)}\{u_1 = (1, 0), u_2 = (1, 1)\} em R2\mathbb{R}^2. A equação α1(1,0)+α2(1,1)=(0,0)\alpha_1(1,0) + \alpha_2(1,1) = (0,0) dá o sistema α1+α2=0\alpha_1 + \alpha_2 = 0, α2=0\alpha_2 = 0, cuja única solução é α1=α2=0\alpha_1 = \alpha_2 = 0. São independentes. Por contraste, (1,2)(1, 2) e (2,4)(2, 4) são dependentes, porque 2(1,2)1(2,4)=(0,0)2 \cdot (1,2) - 1 \cdot (2,4) = (0,0): o segundo é o dobro do primeiro.

Há dois factos que orientam a intuição. Qualquer conjunto com mais vetores do que a dimensão do espaço é dependente (em R2\mathbb{R}^2, três vetores são sempre dependentes). E qualquer conjunto que contenha o vetor nulo é dependente, porque podes multiplicar o zero por um escalar não nulo e os restantes por zero.

Bases e dimensão

Uma base é um conjunto que gera todo o espaço e é linearmente independente: gera porque qualquer vetor se escreve como combinação linear dos vetores da base, e é independente porque essa escrita é única. Os coeficientes dessa escrita única chamam-se coordenadas do vetor na base.

A base mais simples de Rn\mathbb{R}^n é a base canónica: e1=(1,0,,0)e_1 = (1, 0, \dots, 0), e2=(0,1,,0)e_2 = (0, 1, \dots, 0), até ene_n. Qualquer (x1,,xn)(x_1, \dots, x_n) escreve-se x1e1++xnenx_1 e_1 + \dots + x_n e_n, e as coordenadas na base canónica são as próprias componentes.

Todas as bases do mesmo espaço têm o mesmo número de vetores. Esse número é a dimensão do espaço: dimRn=n\dim \mathbb{R}^n = n. Daqui saem dois critérios práticos muito usados nos exercícios:

  • para mostrar que nn vetores formam uma base de Rn\mathbb{R}^n, basta mostrar que são independentes (ou que geram; uma das condições chega quando o número de vetores iguala a dimensão);
  • a dimensão de um subespaço é o número de vetores de qualquer base dele, e calcula-se contando as variáveis livres da sua descrição.

Exemplo: qual é a dimensão do plano x+y+z=0x + y + z = 0 em R3\mathbb{R}^3? Fazendo y=sy = s, z=tz = t, obtemos x=stx = -s - t, logo os pontos são s(1,1,0)+t(1,0,1)s(-1, 1, 0) + t(-1, 0, 1). Os dois vetores geram o plano e são independentes (nenhum é múltiplo do outro), por isso formam uma base e a dimensão é 2. Em geral, cada equação independente “retira” uma dimensão.

Coordenadas numa base

Se B={b1,b2,,bn}B = \{b_1, b_2, \dots, b_n\} é uma base e v=α1b1++αnbnv = \alpha_1 b_1 + \dots + \alpha_n b_n, escreve-se vB=(α1,,αn)Bv_B = (\alpha_1, \dots, \alpha_n)_B. Por exemplo, com a base B={(1,1),(1,1)}B = \{(1, 1), (1, -1)\} de R2\mathbb{R}^2, o vetor v=(3,1)v = (3, 1) satisfaz (3,1)=a(1,1)+b(1,1)(3, 1) = a(1,1) + b(1,-1), ou seja, a+b=3a + b = 3 e ab=1a - b = 1. Somando, a=2a = 2; subtraindo, b=1b = 1. As coordenadas são vB=(2,1)Bv_B = (2, 1)_B. Repara que (3,1)(3, 1) e (2,1)(2, 1) designam o mesmo vetor em bases diferentes: as coordenadas só fazem sentido quando dizes a base. A página de mudanças de base mostra como passar de umas para as outras sem resolver o sistema de raiz.

O que costuma correr mal

  • Chamar subespaço a um conjunto que não contém o zero, como uma reta ou plano deslocado da origem.
  • Confundir “gerar” com “ser independente”: gerar diz que chegas a todo o lado, independência diz que não há vetores a mais. Base é as duas coisas.
  • Afirmar independência sem resolver o sistema α1v1+=0\alpha_1 v_1 + \dots = 0. Intuição geométrica (“apontam para lados diferentes”) ajuda, mas a prova é a conta.
  • Esquecer que as coordenadas dependem da base e comparar coordenadas calculadas em bases diferentes.
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