Espaços vetoriais, bases e dimensão
Subespaços, independência linear, bases, dimensão e coordenadas, tudo em R elevado a n.
Nesta página
Até aqui trabalhámos com contas. Esta página muda o ponto de vista: em vez de olhar para os números, olhamos para a estrutura do conjunto onde vivem as soluções. As noções de subespaço, independência linear, base e dimensão são o vocabulário com que o resto da cadeira se exprime, das aplicações lineares aos valores próprios.
O espaço R elevado a n
O conjunto contém todos os -tuplos de números reais, , com soma e produto por escalar feitos coordenada a coordenada. Para são os pontos do plano, para os do espaço. Um espaço vetorial (também chamado espaço linear) é qualquer conjunto com uma soma e um produto por escalar que obedecem às mesmas regras: associatividade, comutatividade, elemento neutro, simétricos, e as quatro regras que ligam a soma ao produto por escalar. é o exemplo que interessa nesta cadeira, e todos os resultados vão ser aplicados nele.
Subespaços: conjuntos fechados para as operações
Um subespaço de é um subconjunto não vazio tal que:
- se , então ;
- se e , então .
Ou seja, consegues somar e multiplicar por escalares sem sair do conjunto. Todo o subespaço contém o vetor nulo (basta fazer ).
Exemplo: a reta no plano é um subespaço de . Somando continuas na reta, e o mesmo vale para múltiplos. Já a reta não é subespaço: nem sequer contém .
A interseção de subespaços é sempre um subespaço. A união, em geral, não é: a união dos dois eixos coordenados em contém e mas não a soma . Para juntar subespaços usa-se a soma .
Independência linear
Um conjunto de vetores é linearmente independente quando a única combinação linear que dá o vetor nulo é a trivial:
Se existir uma combinação não trivial, os vetores são linearmente dependentes: pelo menos um deles escreve-se como combinação dos outros.
Testa em . A equação dá o sistema , , cuja única solução é . São independentes. Por contraste, e são dependentes, porque : o segundo é o dobro do primeiro.
Há dois factos que orientam a intuição. Qualquer conjunto com mais vetores do que a dimensão do espaço é dependente (em , três vetores são sempre dependentes). E qualquer conjunto que contenha o vetor nulo é dependente, porque podes multiplicar o zero por um escalar não nulo e os restantes por zero.
Bases e dimensão
Uma base é um conjunto que gera todo o espaço e é linearmente independente: gera porque qualquer vetor se escreve como combinação linear dos vetores da base, e é independente porque essa escrita é única. Os coeficientes dessa escrita única chamam-se coordenadas do vetor na base.
A base mais simples de é a base canónica: , , até . Qualquer escreve-se , e as coordenadas na base canónica são as próprias componentes.
Todas as bases do mesmo espaço têm o mesmo número de vetores. Esse número é a dimensão do espaço: . Daqui saem dois critérios práticos muito usados nos exercícios:
- para mostrar que vetores formam uma base de , basta mostrar que são independentes (ou que geram; uma das condições chega quando o número de vetores iguala a dimensão);
- a dimensão de um subespaço é o número de vetores de qualquer base dele, e calcula-se contando as variáveis livres da sua descrição.
Exemplo: qual é a dimensão do plano em ? Fazendo , , obtemos , logo os pontos são . Os dois vetores geram o plano e são independentes (nenhum é múltiplo do outro), por isso formam uma base e a dimensão é 2. Em geral, cada equação independente “retira” uma dimensão.
Coordenadas numa base
Se é uma base e , escreve-se . Por exemplo, com a base de , o vetor satisfaz , ou seja, e . Somando, ; subtraindo, . As coordenadas são . Repara que e designam o mesmo vetor em bases diferentes: as coordenadas só fazem sentido quando dizes a base. A página de mudanças de base mostra como passar de umas para as outras sem resolver o sistema de raiz.
O que costuma correr mal
- Chamar subespaço a um conjunto que não contém o zero, como uma reta ou plano deslocado da origem.
- Confundir “gerar” com “ser independente”: gerar diz que chegas a todo o lado, independência diz que não há vetores a mais. Base é as duas coisas.
- Afirmar independência sem resolver o sistema . Intuição geométrica (“apontam para lados diferentes”) ajuda, mas a prova é a conta.
- Esquecer que as coordenadas dependem da base e comparar coordenadas calculadas em bases diferentes.