Valores e vetores próprios e diagonalização
Polinómio característico, cálculo de valores e vetores próprios, diagonalização e matrizes simétricas.
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Há vetores que uma matriz não roda nem deforma, apenas estica ou encolhe: entram numa direção e saem na mesma direção. São os vetores próprios, e o fator de escala é o valor próprio. Encontrá-los é descobrir os eixos naturais da transformação, e quando há uma base deles, a matriz torna-se diagonal: a forma mais simples possível.
Definição
Seja quadrada de ordem . Um escalar é um valor próprio e um vetor não nulo é um vetor próprio associado quando
Repara nas duas exigências: (o vetor nulo satisfaz a equação para qualquer , por isso está excluído) e a igualdade é exata, não aproximada.
Para encontrar , reescreve-se como . Como , o sistema homogéneo tem de ter soluções não triviais, o que acontece exatamente quando
O primeiro membro é um polinómio de grau em , o polinómio característico. As suas raízes são os valores próprios. Depois, para cada valor próprio, resolve-se o sistema para obter os vetores próprios (que formam o espaço próprio associado, sempre um subespaço).
Exemplo completo
Seja . Então
Os valores próprios são e .
Para : dá (a segunda equação é redundante), logo . Os vetores próprios são os múltiplos não nulos de . Confirma: .
Para : dá , logo os múltiplos de . Confirma: .
Diagonalização
Se conseguires uma base de vetores próprios, a matriz da aplicação nessa base é diagonal, com os valores próprios na diagonal. Em forma matricial: se tem como colunas os vetores próprios (pela ordem dos valores ), então
Com o exemplo, e . Verifica a igualdade (que evita inverter ): e . Iguais. A matriz é diagonalizável.
Isto nem sempre é possível. Há duas causas de falha: o polinómio característico pode não ter raízes reais suficientes (sobre , uma rotação de não tem valores próprios reais), ou pode haver um valor próprio cuja multiplicidade como raiz exceda a dimensão do seu espaço próprio. Vetores próprios associados a valores próprios distintos são sempre independentes, por isso uma matriz com valores próprios distintos é garantidamente diagonalizável.
A diagonalização simplifica potências: , e calcula-se elevando cada entrada da diagonal. É assim que se estudam evoluções iteradas (potências de matrizes de transição, recorrências) sem multiplicar matrizes dezenas de vezes.
Matrizes simétricas e o teorema espectral
Uma matriz real simétrica () é sempre diagonalizável, com valores próprios reais e vetores próprios de valores distintos automaticamente ortogonais. É o teorema espectral: existe uma base ortonormada de vetores próprios, e a matriz de passagem pode ser escolhida ortogonal ().
Vê com (a matriz da página de mudanças de base). O polinómio característico é . Para : , vetor . Para : , vetor . Os dois vetores são ortogonais (), como o teorema promete, e normalizando obténs a base ortonormada .
O que costuma correr mal
- Aceitar o vetor nulo como vetor próprio, ou apresentar “vetores próprios” sem verificar no fim.
- Resolver com erros de sinal no polinómio característico, sobretudo no termo independente (que vale e serve de verificação).
- Assumir que qualquer matriz diagonaliza. Testa sempre se tens vetores próprios independentes antes de escrever .
- Montar com os vetores por ordem e com os valores por outra ordem. A coluna de tem de corresponder à posição da diagonal de .
- Em matrizes simétricas, esquecer que a ortogonalidade entre espaços próprios distintos é garantida, mas vetores dentro do mesmo espaço próprio ainda precisam de ser ortogonalizados se quiseres uma base ortonormada.