Conteúdos da cadeira

Produtos escalar, vetorial e misto

Os três produtos em R2 e R3, ângulos, áreas, volumes e ortogonalidade.

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Somar vetores e multiplicar por escalares chega para a álgebra, mas a geometria precisa de medir: comprimentos, ângulos, áreas e volumes. Há três produtos para isso, cada um com o seu papel. O escalar devolve um número e mede ângulos; o vetorial devolve um vetor perpendicular aos dois fatores e mede áreas; o misto combina os dois e mede volumes.

Produto escalar: ângulos e comprimentos

O produto escalar (ou interno usual) de u=(u1,,un)u = (u_1, \dots, u_n) por v=(v1,,vn)v = (v_1, \dots, v_n) é

uv=u1v1+u2v2++unvn.u \cdot v = u_1 v_1 + u_2 v_2 + \dots + u_n v_n.

A norma de uu é u=uu\|u\| = \sqrt{u \cdot u}, o comprimento do vetor. Com u=(3,4)u = (3, 4), u=9+16=5\|u\| = \sqrt{9 + 16} = 5.

A ligação à geometria está na fórmula uv=uvcosθu \cdot v = \|u\| \, \|v\| \cos \theta, onde θ\theta é o ângulo entre os vetores. Com u=(1,0)u = (1, 0) e v=(1,1)v = (1, 1): uv=1u \cdot v = 1, u=1\|u\| = 1, v=2\|v\| = \sqrt{2}, logo cosθ=1/2\cos \theta = 1/\sqrt{2} e θ=45\theta = 45^\circ. O sinal do produto escalar diz-te o tipo de ângulo: positivo é agudo, zero é reto, negativo é obtuso.

Dois vetores com produto escalar nulo dizem-se ortogonais (perpendiculares). As propriedades essenciais são a comutatividade, uv=vuu \cdot v = v \cdot u, a distributividade e (ku)v=k(uv)(ku) \cdot v = k(u \cdot v). Um erro clássico é tentar “dividir” por um vetor ou distribuir uma norma: u+v\|u + v\| não é u+v\|u\| + \|v\| em geral (é a desigualdade triangular: u+vu+v\|u + v\| \leq \|u\| + \|v\|).

Produto vetorial: só em R3

O produto vetorial só existe em R3\mathbb{R}^3. Para a=(a1,a2,a3)a = (a_1, a_2, a_3) e b=(b1,b2,b3)b = (b_1, b_2, b_3),

a×b=(a2b3a3b2,  a3b1a1b3,  a1b2a2b1).a \times b = (a_2 b_3 - a_3 b_2,\; a_3 b_1 - a_1 b_3,\; a_1 b_2 - a_2 b_1).

Uma mnemónica é o determinante simbólico com os versores e1,e2,e3e_1, e_2, e_3 na primeira linha:

a×b=det[e1e2e3a1a2a3b1b2b3],a \times b = \det \begin{bmatrix} e_1 & e_2 & e_3 \\ a_1 & a_2 & a_3 \\ b_1 & b_2 & b_3 \end{bmatrix},

expandido pela primeira linha. Com a=(1,0,0)a = (1, 0, 0) e b=(0,1,0)b = (0, 1, 0) obténs (0,0,1)(0, 0, 1): o produto dos dois primeiros versores canónicos é o terceiro, e as permutações cíclicas funcionam da mesma forma.

O vetor a×ba \times b é ortogonal a aa e a bb (confirma com o produto escalar: dá sempre zero), e o seu módulo mede a área do paralelogramo definido por aa e bb:

a×b=absinθ.\|a \times b\| = \|a\| \, \|b\| \sin \theta.

Por exemplo, a=(2,0,0)a = (2, 0, 0) e b=(0,3,0)b = (0, 3, 0) dão a×b=(0,0,6)a \times b = (0, 0, 6), com módulo 6: o retângulo de lados 2 e 3. O sentido segue a regra da mão direita: com o indicador ao longo de aa e o dedo médio ao longo de bb, o polegar aponta para a×ba \times b.

As propriedades pedem atenção porque são quase, mas não exatamente, as habituais:

  • anticomutatividade: a×b=(b×a)a \times b = -(b \times a);
  • distributividade e (ka)×b=a×(kb)=k(a×b)(ka) \times b = a \times (kb) = k(a \times b);
  • não é associativo: a×(b×c)a \times (b \times c) difere em geral de (a×b)×c(a \times b) \times c.

Se a×b=0a \times b = 0 com aa e bb não nulos, os vetores são paralelos (um é múltiplo escalar do outro). É um teste de paralelismo muito prático.

Produto misto: volumes e coplanaridade

O produto misto de três vetores de R3\mathbb{R}^3 é o número [u,v,w]=(u×v)w[u, v, w] = (u \times v) \cdot w, que coincide com o determinante da matriz que tem os três vetores como linhas (ou colunas):

[u,v,w]=det[u1u2u3v1v2v3w1w2w3].[u, v, w] = \det \begin{bmatrix} u_1 & u_2 & u_3 \\ v_1 & v_2 & v_3 \\ w_1 & w_2 & w_3 \end{bmatrix}.

O seu módulo é o volume do paralelepípedo definido pelos três vetores. Os versores canónicos dão determinante 1, logo o cubo unitário tem volume 1, como esperado.

A consequência mais usada: [u,v,w]=0[u, v, w] = 0 exatamente quando os três vetores são coplanares (linearmente dependentes). Testa u=(1,1,0)u = (1, 1, 0), v=(0,1,1)v = (0, 1, 1), w=(1,2,1)w = (1, 2, 1). Primeiro u×v=(1101,  0011,  1110)=(1,1,1)u \times v = (1 \cdot 1 - 0 \cdot 1,\; 0 \cdot 0 - 1 \cdot 1,\; 1 \cdot 1 - 1 \cdot 0) = (1, -1, 1). Depois (u×v)w=11+(1)2+11=0(u \times v) \cdot w = 1 \cdot 1 + (-1) \cdot 2 + 1 \cdot 1 = 0. São coplanares: de facto, w=u+vw = u + v. Permutações cíclicas dos três vetores mantêm o valor do produto misto; trocar dois deles troca o sinal, tal como no determinante.

Quadro comparativo

ProdutoOnde viveResultadoMedeZero significa
uvu \cdot vRn\mathbb{R}^nescalarângulo, comprimentoortogonalidade
u×vu \times vR3\mathbb{R}^3vetorárea do paralelogramovetores paralelos
[u,v,w][u, v, w]R3\mathbb{R}^3escalarvolume do paralelepípedovetores coplanares

O que costuma correr mal

  • Calcular produtos vetoriais em R2\mathbb{R}^2. Não existem: ou trabalhas com o escalar, ou mergulhas os vetores em R3\mathbb{R}^3 com terceira coordenada zero.
  • Trocar a ordem do produto vetorial sem trocar o sinal, ou assumir associatividade.
  • Errar sinais nas componentes do meio do produto vetorial (a segunda componente é a3b1a1b3a_3 b_1 - a_1 b_3, com a ordem “trocada” em relação ao que o padrão sugere).
  • Esquecer o módulo ao calcular áreas e volumes: o produto vetorial é um vetor e o misto tem sinal; áreas e volumes usam o valor absoluto.
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