Formas quadráticas, cónicas e quádricas

Retirar termos cruzados por diagonalização ortogonal, encontrar centros e reconhecer formas canónicas.

TLDR

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A equação 2x2+2xy+2y2=32x^2+2xy+2y^2=3 descreve uma elipse, mas o termo 2xy2xy esconde os seus eixos.

A matriz simétrica [2112]\begin{bmatrix}2&1\\1&2\end{bmatrix}, já usada nas mudanças de base, fornece as direções desses eixos. Uma mudança ortonormada retira o termo cruzado e conserva os comprimentos necessários para ler os semieixos.

Da equação à matriz simétrica

Uma forma quadrática em duas variáveis escreve-se

ax2+2bxy+cy2=[xy][abbc][xy].ax^2+2bxy+cy^2= \begin{bmatrix}x&y\end{bmatrix} \begin{bmatrix}a&b\\b&c\end{bmatrix} \begin{bmatrix}x\\y\end{bmatrix}.

A entrada fora da diagonal é metade do coeficiente de xyxy: as duas entradas bb produzem uma parcela bxybxy cada uma.

Em três variáveis, fazemos o mesmo para xy,xz,yzxy,xz,yz.

Por exemplo, 2x2+2xy+2y22x^2+2xy+2y^2 corresponde a A=[2112]A=\begin{bmatrix}2&1\\1&2\end{bmatrix}.

Retirar o termo cruzado

Uma matriz real simétrica admite uma base ortonormada de vetores próprios. Se QQ tiver esses vetores como colunas, QTAQ=DQ^TAQ=D. Ao escrever X=QUX=QU,

XTAX=UTQTAQU=UTDU.X^TAX=U^TQ^TAQU=U^TDU.

A base ortonormada conserva comprimentos e ângulos. Nota a diferença para a diagonalização comum: a igualdade P−1AP=DP^{-1}AP=D não é a substituição que aparece na forma quadrática, que produz PTAPP^TAP.

Normalizar uma base ortogonal de vetores próprios permite usar Q−1=QTQ^{-1}=Q^T e conservar a unidade dos comprimentos. Se usares vetores ortogonais não normalizados, os coeficientes de PTAPP^TAP incluem os quadrados das suas normas.

No exemplo, as direções próprias são (1,1)(1,1) e (1,−1)(1,-1), com valores próprios 3 e 1. Normalizando,

Q=12[111−1],u=x+y2,v=x−y2.Q=\frac1{\sqrt2}\begin{bmatrix}1&1\\1&-1\end{bmatrix}, \qquad u=\frac{x+y}{\sqrt2},\quad v=\frac{x-y}{\sqrt2}.

A equação 2x2+2xy+2y2=32x^2+2xy+2y^2=3 passa a

3u2+v2=3⟺u21+v23=1.3u^2+v^2=3 \quad\Longleftrightarrow\quad \frac{u^2}{1}+\frac{v^2}{3}=1.

É uma elipse de semieixos 11 e 3\sqrt3, com o eixo mais comprido na direção (1,−1)(1,-1) e centro na origem.

Elipse centrada na origem. O semieixo curto segue (1, 1), o longo segue (1, menos 1).u: semieixo 1v: semieixo √3xy0
Em coordenadas ortonormadas, 3u² + v² = 3. O maior semieixo tem a direção (1, −1), associada ao menor valor próprio.

Termos lineares e centro

Para q(X)=XTAX+ℓTX+kq(X)=X^TAX+\ell^TX+k, com AA real simétrica, vetor de coeficientes lineares ℓ\ell e constante kk, uma translação X=h+YX=h+Y elimina os termos lineares se

2Ah+ℓ=0.2Ah+\ell=0.

Se AA é invertível, há um centro único h=−12A−1ℓh=-\frac12A^{-1}\ell.

Desenvolvendo,

q(h+Y)=(h+Y)TA(h+Y)+ℓT(h+Y)+k=YTAY+(2Ah+ℓ)TY+q(h),q(h+Y)=(h+Y)^TA(h+Y)+\ell^T(h+Y)+k=Y^TAY+(2Ah+\ell)^TY+q(h),

o termo linear desaparece exatamente quando 2Ah+ℓ=02Ah+\ell=0.

Substituindo,

q(h+Y)=YTAY+q(h).q(h+Y)=Y^TAY+q(h).

Na equação

2x2+2xy+2y2−6x−6y+3=0,2x^2+2xy+2y^2-6x-6y+3=0,

temos ℓ=(−6,−6)\ell=(-6,-6) e Ah=(3,3)Ah=(3,3), logo h=(1,1)h=(1,1). A substituição direta dá q(h)=−3q(h)=-3. Depois da translação e da mudança ortonormada,

3u2+v2=3.3u^2+v^2=3.

É a mesma elipse, agora centrada em (1,1)(1,1), com novas coordenadas u=(x+y−2)/2u=(x+y-2)/\sqrt2 e v=(x−y)/2v=(x-y)/\sqrt2.

Se AA for singular, não uses a fórmula da inversa. Resolve 2Ah+ℓ=02Ah+\ell=0: pode não existir centro ou pode existir uma família de centros.

Reconhecer uma cónica

Depois de diagonalizar e de completar quadrados, compara com uma forma canónica. Os parâmetros a,ba,b da tabela são positivos.

FormaCurva
u2/a2+v2/b2=1u^2/a^2+v^2/b^2=1Elipse
u2/a2−v2/b2=1u^2/a^2-v^2/b^2=1Hipérbole
v2=4puv^2=4pu, com p≠0p\ne0Parábola
u2/a2+v2/b2=0u^2/a^2+v^2/b^2=0Um ponto
u2/a2−v2/b2=0u^2/a^2-v^2/b^2=0Duas retas concorrentes
u2=a2u^2=a^2Duas retas paralelas
u2=0u^2=0Uma reta dupla
u2+v2=−1u^2+v^2=-1 (conjunto vazio: o segundo membro negativo decide, não apenas os sinais próprios)Conjunto vazio

O sinal dos valores próprios ajuda, mas o termo independente também conta: dois valores positivos podem dar uma elipse, um ponto ou o conjunto vazio. Um valor próprio nulo não significa automaticamente parábola. Olha para o termo linear na direção sem termo quadrático.

Por exemplo, x2−2y=0x^2-2y=0 é uma parábola, enquanto x2−1=0x^2-1=0 é um par de retas, embora a matriz da parte quadrática seja a mesma nos dois casos.

Reconhecer uma quádrica

Em três dimensões, começamos pelo mesmo processo. Estas formas canónicas mostram os principais casos, com a,b,c>0a,b,c>0:

FormaSuperfície
u2/a2+v2/b2+w2/c2=1u^2/a^2+v^2/b^2+w^2/c^2=1Elipsoide
u2/a2+v2/b2−w2/c2=1u^2/a^2+v^2/b^2-w^2/c^2=1Hiperboloide de uma folha
−u2/a2−v2/b2+w2/c2=1-u^2/a^2-v^2/b^2+w^2/c^2=1Hiperboloide de duas folhas
u2/a2+v2/b2−w2/c2=0u^2/a^2+v^2/b^2-w^2/c^2=0Cone elíptico
u2/a2+v2/b2=1u^2/a^2+v^2/b^2=1Cilindro elíptico, livre na direção ww
w=u2/a2+v2/b2w=u^2/a^2+v^2/b^2Paraboloide elíptico
w=u2/a2−v2/b2w=u^2/a^2-v^2/b^2Paraboloide hiperbólico

Uma variável ausente significa que a superfície se prolonga livremente nessa direção. Os casos degenerados, como pontos, retas, planos ou conjunto vazio, exigem resolver a equação final; não desaparecem da análise por não estarem nesta tabela.

Uma folha ou duas?

Podemos distinguir os dois hiperboloides cortando-os por planos horizontais w=tw=t. Para u2+v2−w2=1u^2+v^2-w^2=1, cada corte satisfaz

u2+v2=1+t2.u^2+v^2=1+t^2.

Há uma circunferência para qualquer tt: em t=0t=0, o raio é 1; em t=±1t=\pm1, é 2\sqrt2. Os cortes nunca desaparecem e ligam-se numa superfície de uma folha.

Para −u2−v2+w2=1-u^2-v^2+w^2=1, o corte satisfaz

u2+v2=t2−1.u^2+v^2=t^2-1.

Se ∣t∣<1|t|<1, não há pontos, porque o primeiro membro não pode ser negativo. Em t=±1t=\pm1, o corte é um ponto; para ∣t∣>1|t|>1, é uma circunferência de raio t2−1\sqrt{t^2-1}. A faixa vazia −1<w<1-1<w<1 separa a superfície em duas folhas, uma com w≥1w\geq1 e outra com w≤−1w\leq-1.

Elipsoide rodado e transladado (opcional)

Considera 2x2+2xy+2y2+z2−6x−6y+3=02x^2+2xy+2y^2+z^2-6x-6y+3=0. A parte quadrática em (x,y)(x,y) é a do exemplo da elipse e zz aparece só com z2z^2. O centro resolve

[210120001]h=[330],\begin{bmatrix}2&1&0\\1&2&0\\0&0&1\end{bmatrix}h =\begin{bmatrix}3\\3\\0\end{bmatrix},

logo h=(1,1,0)h=(1,1,0). A constante no centro é q(h)=2+2+2−6−6+3=−3q(h)=2+2+2-6-6+3=-3. Com x=1+y1x=1+y_1, y=1+y2y=1+y_2 e z=wz=w, a equação fica

2y12+2y1y2+2y22+w2=3.2y_1^2+2y_1y_2+2y_2^2+w^2=3.

A mudança ortonormada u=(y1+y2)/2u=(y_1+y_2)/\sqrt2, v=(y1−y2)/2v=(y_1-y_2)/\sqrt2 deixa w=zw=z inalterado. Obtemos 3u2+v2+w2=33u^2+v^2+w^2=3, ou seja,

u21+v23+w23=1.\frac{u^2}{1}+\frac{v^2}{3}+\frac{w^2}{3}=1.

É um elipsoide de semieixos 1,3,31,\sqrt3,\sqrt3, centrado em (1,1,0)(1,1,0). O eixo mais curto segue a direção (1,1,0)(1,1,0), associada ao coeficiente 3.

Exercícios

Um valor nulo não prova parábola

Classifica 4x2+4xy+y2=14x^2+4xy+y^2=1 e indica a matriz simétrica.

Pista

A entrada cruzada é metade de 4.

Solução

A matriz é [4221]\begin{bmatrix}4&2\\2&1\end{bmatrix}, com valores próprios 5 e 0. A equação equivale a 2x+y=12x+y=1 ou 2x+y=−12x+y=-1: duas retas paralelas. Não há termo linear na direção nula que crie uma parábola.

Confere a tua resposta:

  • Constrói a matriz.
  • Identifica as duas retas.

Erros frequentes

A entrada fora da diagonal é metade do coeficiente de xyxy. Um valor próprio zero não implica, por si só, uma parábola.

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Centro e semieixos

Encontra centro e semieixos de 2x2+2xy+2y2−6x−6y+3=02x^2+2xy+2y^2-6x-6y+3=0.

Pista

Resolve 2Ah+ℓ=02Ah+\ell=0.

Solução

Com X=(1,1)+YX=(1,1)+Y, a equação fica 2y12+2y1y2+2y22=32y_1^2+2y_1y_2+2y_2^2=3 com Y=(y1,y2)Y=(y_1,y_2): o termo linear cancela porque 2Ah+ℓ=02Ah+\ell=0 e a constante é q(1,1)=−3q(1,1)=-3. A mudança ortonormada u=(y1+y2)/2u=(y_1+y_2)/\sqrt2, v=(y1−y2)/2v=(y_1-y_2)/\sqrt2 dá 3u2+v2=33u^2+v^2=3. Os semieixos são 1,31,\sqrt3, com o maior na direção (1,−1)(1,-1).

Confere a tua resposta:

  • Obtém o centro e a equação transformada.
  • Usa coordenadas ortonormadas para os semieixos.

Erros frequentes

Retirar termos cruzados não retira os termos lineares. Faz também a translação e só depois lê os semieixos.

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Secções de uma superfície

Distingue x2+y2−z2=1x^2+y^2-z^2=1 de −x2−y2+z2=1-x^2-y^2+z^2=1 por secções de z constante.

Pista

Isola x²+y².

Mais uma pista

Os raios ao quadrado são 1+z² e z²-1.

Solução

Na primeira, x2+y2=1+z2>0x^2+y^2=1+z^2>0: há uma circunferência de raio 1+z2\sqrt{1+z^2} para todo zz, incluindo z=0z=0. É um hiperboloide de uma folha. Na segunda, x2+y2=z2−1x^2+y^2=z^2-1. Para ∣z∣<1|z|<1 não há pontos; para z=±1z=\pm1 o corte é um ponto; para ∣z∣>1|z|>1 é uma circunferência. A faixa vazia separa duas folhas.

Confere a tua resposta:

  • Calcula os raios ao quadrado.
  • Relaciona as secções com as folhas.

Erros frequentes

Olha para os valores de zz que permitem uma secção real. As duas equações não descrevem o mesmo número de folhas.

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Valor próprio zero e termo linear

Classifica x2−2xy+y2−2x−2y=0x^2-2xy+y^2-2x-2y=0. Obtém coordenadas ortonormadas que retirem o termo cruzado, decide se existe centro e identifica o vértice e o eixo.

Pista

A matriz quadrática é [1−1−11]\begin{bmatrix}1&-1\\-1&1\end{bmatrix}. Os vetores (1,−1)(1,-1) e (1,1)(1,1) dão as direções próprias.

Mais uma pista

Escolhe u=(x−y)/2u=(x-y)/\sqrt2 e v=(x+y)/2v=(x+y)/\sqrt2. O termo linear continua presente na direção de valor próprio zero.

Solução

Os valores próprios são 2 e 0. Nas coordenadas indicadas,

2u2−22v=0⟺u2=2v.2u^2-2\sqrt2v=0 \quad\Longleftrightarrow\quad u^2=\sqrt2v.

É uma parábola, com vértice na origem e eixo u=0u=0, isto é, x=yx=y, abrindo na direção (1,1)(1,1).

Um centro teria de satisfazer 2Ah+(−2,−2)T=02Ah+(-2,-2)^T=0, ou seja, Ah=(1,1)TAh=(1,1)^T. As duas linhas de AA são simétricas uma da outra; as equações exigiriam simultaneamente h1−h2=1h_1-h_2=1 e −h1+h2=1-h_1+h_2=1. É impossível, logo não há centro. O valor próprio zero não basta para classificar: é o termo linear nessa direção que produz a parábola.

Confere a tua resposta:

  • Mantém o termo linear depois da rotação.
  • Justifica a falta de centro e identifica vértice e eixo na base original.

Erros frequentes

Diagonalizar só a parte quadrática não transforma esta equação em duas retas. O termo linear na direção nula não desaparece.

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