Testes de hipóteses

Hipóteses sobre parâmetros, estatísticas de teste, caudas, valor-p e ligação aos intervalos.

TLDR

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Uma máquina deve produzir peças com comprimento médio de 100 mm. Uma amostra de 16 peças tem média de 98,5 mm. A diferença pode resultar da variação amostral ou indicar uma média populacional diferente. O teste avalia a compatibilidade dos dados com uma hipótese, usando um modelo e uma regra de decisão previamente escolhidos.

Formular as hipóteses

H0H_0 é a hipótese nula e H1H_1 é a alternativa; são afirmações sobre parâmetros, não sobre a média já observada.

PerguntaH0H_0 de referênciaH1H_1
A média difere de 100?μ=100\mu=100μ≠100\mu\ne100
A média é inferior a 100?μ=100\mu=100μ<100\mu<100
A média é superior a 100?μ=100\mu=100μ>100\mu>100

Em testes unilaterais pode escrever-se a nula composta μ≥100\mu\ge100 ou μ≤100\mu\le100, respetivamente; para a calibração habitual da estatística normal ou t usa-se a fronteira μ=100\mu=100. A alternativa deve representar a pergunta inicial, pelo que não a escolhes unilateral depois de veres que lado parece favorecer a rejeição.

Estatística e distribuição sob a nula

Para uma média normal com σ\sigma conhecido,

Z0=Xˉ−μ0σ/n∼N(0,1)sob H0.Z_0=\frac{\bar X-\mu_0}{\sigma/\sqrt n}\sim N(0,1)\quad\text{sob }H_0.

Com desvio desconhecido e população normal,

T0=Xˉ−μ0S/n∼tn−1sob H0.T_0=\frac{\bar X-\mu_0}{S/\sqrt n}\sim t_{n-1}\quad\text{sob }H_0.

O valor observado z ou t mede a distância à hipótese em unidades de erro padrão; o sinal conserva a direção. Para duas médias, o mesmo raciocínio aplica-se com o erro padrão e os graus de liberdade de comparar médias, na página seguinte.

Com população não normal e n grande, a estatística com erro padrão estimado pode ser aproximadamente normal. Para amostras pequenas, o teste t requer a condição de normalidade adequada e atenção a extremos.

Valor-p e região crítica

O valor-p é a probabilidade, calculada sob H0H_0, de resultados pelo menos tão extremos como o observado, segundo a alternativa. Para uma distribuição contínua simétrica de referência com acumulada G,

AlternativaValor-p para estatística observada t
Bilateral2[1−G(∣t∣)]2[1-G(\lvert t\rvert)]
À direita1−G(t)1-G(t)
À esquerdaG(t)G(t)

Fixado o nível α\alpha, rejeitamos se o valor-p é não superior a α\alpha. Equivalentemente, para um teste t, rejeita-se quando

  • bilateral: ∣t∣≥tα/2,ν|t|\ge t_{\alpha/2,\nu};
  • à direita: t≥tα,νt\ge t_{\alpha,\nu};
  • à esquerda: t≤−tα,νt\le-t_{\alpha,\nu}.

Numa tabela de caudas direitas, compara ∣t∣|t| com os quantis para enquadrar a área. Se t0,025;ν<∣t∣<t0,01;νt_{0,025;\nu}<|t|<t_{0,01;\nu}, o valor-p bilateral está entre 0,02 e 0,05. No teste unilateral, usa a cauda no sentido de H1H_1, não metade do valor bilateral sem olhar para o sinal.

Teste bilateral do comprimento médio

Uma máquina deve produzir peças com comprimento médio 100 mm. Medem-se 16 peças independentes de uma população normal: xˉ=98,5\bar x=98,5 e s=2s=2. A pergunta é se a média difere de 100, a 5%.

  1. H0:μ=100H_0:\mu=100 e H1:μ≠100H_1:\mu\ne100.
  2. σ\sigma é desconhecido, logo usamos t com 15 graus de liberdade.
  3. SE=2/16=0,5SE=2/\sqrt{16}=0,5 e t=(98,5−100)/0,5=−3t=(98,5-100)/0,5=-3.
  4. O valor crítico bilateral é t0,025;15≈2,1314t_{0,025;15}\approx2,1314. Como ∣−3∣>2,1314|-3|>2,1314, rejeitamos.
  5. O valor-p é aproximadamente 0,0090. Há evidência, a 5%, de que a média populacional difere de 100 mm; a estimativa observada é inferior em 1,5 mm.

Se a alternativa previamente escolhida fosse μ<100\mu<100, o valor-p seria cerca de 0,0045. Se fosse μ>100\mu>100, seria cerca de 0,9955. Uma estatística negativa não apoia um aumento.

t com 15 graus-303observadoEstatística t
As duas áreas somam cerca de 0,0090. Uma alternativa à esquerda usaria só a área além de menos 3; uma alternativa à direita usaria toda a área à direita de menos 3.

Não rejeitar e relevância prática

Estatística, valor-p e nível de significância

Num teste t bilateral com graus de liberdade fixos, o valor-p depende de ∣t∣|t|. Passar de t=−3t=-3 para t=−1t=-1 aumenta a estatística, mas aproxima-a de zero e aumenta o valor-p. Passar de t=1t=1 para t=3t=3 também aumenta a estatística, mas afasta-a de zero e reduz o valor-p. Por isso, «a estatística aumenta, logo o valor-p diminui» não é uma regra bilateral.

Mantendo os dados, o modelo e a alternativa, mudar α\alpha não altera o valor-p. Com p=0,0254p=0,0254, rejeitamos a níveis 0,05 e 0,03, mas não a 0,02 ou 0,01. Mudou o limiar da decisão, não a evidência calculada a partir dos dados. Numa comparação com graus de liberdade diferentes, nem sequer basta comparar os valores absolutos das estatísticas: mudou a distribuição de referência.

Com valor-p 0,08 e α=0,05\alpha=0,05, não rejeitamos H0H_0, ou seja, a evidência é insuficiente para a alternativa neste teste e a igualdade não fica demonstrada. Uma amostra pouco precisa pode deixar diferenças importantes por detetar.

Também não basta escrever «significativo»: apresenta a estimativa e a sua unidade. Uma diferença minúscula pode tornar-se estatisticamente significativa numa amostra enorme. Uma diferença útil pode não ser detetada numa amostra pequena. Causalidade depende do desenho, não do valor-p.

Relação com o intervalo de confiança

Para um teste bilateral e o intervalo construído a partir do mesmo modelo e estatística, rejeitar a 5% equivale a o valor nulo estar fora do intervalo de 95%.

No exemplo, o intervalo t é 98,5±2,1314(0,5)=[97,4343;99,5657]98,5\pm2,1314(0,5)=[97,4343;99,5657]; não contém 100, coerente com a rejeição. Um intervalo bilateral de 95% não é o intervalo correspondente a um teste unilateral de 5%, e esta equivalência exige métodos compatíveis: um intervalo de proporção com erro padrão estimado ou ajustamento não é automaticamente a inversão do teste que usa o erro padrão sob a nula.

Exercícios

A direção muda o valor-p

Num teste normal à direita, a estatística observada é z=−1,5. Calcula o valor-p.

Pista

Usa a cauda à direita do valor observado, mesmo sendo negativo.

Solução

O valor-p é aproximadamente 0,933193. Um resultado negativo não fornece evidência de aumento. O valor bilateral seria cerca de 0,133614.

Erros frequentes

Não usar metade do valor bilateral ignorando o sinal e a alternativa.

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Três níveis de significância

Um teste bilateral tem valor-p=0,024. Indica a decisão para α igual a 0,01, 0,02 e 0,05. Explica o que a não rejeição não permite afirmar.

Pista

Compara o mesmo valor-p com cada α.

Solução

Não rejeitamos a 1% ou 2%; rejeitamos a 5%. O nível mais permissivo aceita maior risco de tipo I. Não rejeitar significa que a evidência é insuficiente naquele nível, ou seja, a igualdade não fica demonstrada.

Confere a tua resposta:

  • Não rejeita a 1% nem a 2%.
  • Rejeita a 5%.
  • Não interpreta a não rejeição como prova de H0.

Erros frequentes

Não dizer que a probabilidade de H0 ser verdadeira é 0,024.

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Intervalo e teste bilateral

Um IC t de 95% para μ1−μ2 é [−4;−1]. Para o teste bilateral compatível H0:μ1−μ2=0, qual a decisão a 5% e a 10%? Pode dizer-se que a diferença é positiva?

Pista

Usa a correspondência entre teste e intervalo do mesmo procedimento.

Solução

Rejeitamos a 5% e também a 10%. O intervalo aponta para μ1 inferior a μ2. Não apoia uma diferença positiva. A correspondência exige teste bilateral e o mesmo procedimento de inferência.

Confere a tua resposta:

  • Rejeita a 5% porque zero está fora do intervalo.
  • Também rejeita a 10%.
  • Interpreta a diferença como negativa, segundo a ordem μ1−μ2.

Erros frequentes

Não aplicar esta equivalência automaticamente a um teste unilateral ou a outro método de intervalo.

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Hipótese bilateral e aumento da amostra

Uma máquina deve produzir peças com média 100 mm. Dezasseis peças independentes de população normal dão média 98,5 mm e desvio amostral 4 mm. Testa H0:μ=100H_0:\mu=100 contra H1:μ≠100H_1:\mu\ne100 a 5%, usando t0,025;15=2,1314t_{0,025;15}=2,1314 e valor-p 0,1544. Num segundo estudo independente com 64 peças, obtêm-se a mesma média e o mesmo desvio. Usa t0,025;63=1,9983t_{0,025;63}=1,9983 e valor-p 0,0039. Compara as decisões e a dimensão estimada da diferença.

Pista

Compara erros padrão antes dos valores-p.

Solução

No primeiro estudo, SE=4/16=1SE=4/\sqrt{16}=1 e t=−1,5t=-1,5. Como ∣t∣<2,1314|t|<2,1314 e 0,1544>0,050,1544>0,05, não rejeitamos. No segundo, SE=4/64=0,5SE=4/\sqrt{64}=0,5 e t=−3t=-3. Agora 3>1,99833>1,9983 e 0,0039<0,050,0039<0,05, pelo que rejeitamos. A diferença estimada continua a ser −1,5-1,5 mm; mudou a precisão, não o tamanho observado do efeito. A não rejeição no primeiro estudo não demonstrava igualdade.

Confere a tua resposta:

  • Calculei erros padrão 1 e 0,5.
  • Obtive t=−1,5 e t=−3 com os graus correspondentes.
  • Não rejeitei no primeiro estudo e rejeitei no segundo.
  • Mantive a diferença estimada de −1,5 mm nos dois estudos.
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A estatística aumentou dos dois lados

Dois pares de resultados de testes t bilaterais usam sempre 20 graus de liberdade. No primeiro par, a estatística passa de −3 para −1; no segundo, de 1 para 3. Em ambos, o seu valor numérico aumentou. O que acontece ao valor-p em cada par? Para um resultado já calculado, mudar o nível de significância de 5% para 1% também muda o valor-p?

Pista

Compara valores absolutos com os mesmos graus; separa o limiar da decisão da evidência calculada.

Solução

No primeiro par, ∣t∣|t| desce de 3 para 1: a área das duas caudas além de ∣t∣|t| aumenta, logo p aumenta. No segundo, ∣t∣|t| sobe de 1 para 3 e p diminui. Por simetria, −3 e 3 dão o mesmo p bilateral, tal como −1 e 1, com os mesmos graus. O sinal sozinho não ordena a extremidade bilateral.

Mudar o nível de significância só altera o limiar com que se compara p. Mantendo dados, modelo e alternativa, o valor-p continua igual. Já mudar a alternativa para unilateral altera quais resultados contamos como extremos e constitui outro teste.

Confere a tua resposta:

  • Compara os valores absolutos mantendo os graus de liberdade.
  • Conclui que p aumenta de −3 para −1 e diminui de 1 para 3.
  • Separa a mudança de α da mudança de dados ou do teste.
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