Variáveis aleatórias

Função de probabilidade, densidade, distribuição acumulada, momentos e transformações.

TLDR

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Na inspeção de dez peças, o resultado é uma sequência de aprovadas e rejeitadas. A variável aleatória XX associa a cada sequência o número de falhas, de 0 a 10. Se falharem as peças 1 e 2 ou as peças 4 e 8, obtemos em ambos os casos X=2X=2. A distribuição de X reúne as probabilidades de todas as sequências que dão a mesma contagem.

Distribuição discreta

Se os valores possíveis formam um conjunto finito ou contável, a função de probabilidade é fX(x)=P(X=x)f_X(x)=P(X=x). Os valores são não negativos e somam 1. Para calcular a probabilidade de um acontecimento, somam-se as probabilidades dos valores que o satisfazem.

Exemplo. Uma variável tem valores −1,0,2-1,0,2 com probabilidades 0,2,c,0,30,2,c,0,3. Como a soma deve ser 1, c=0,5c=0,5. Então P(X<2)=0,2+0,5=0,7P(X<2)=0,2+0,5=0,7, mas P(X≤2)=1P(X\le2)=1. Neste modelo, P(X=1)=0P(X=1)=0.

Distribuição acumulada

A função de distribuição é

FX(x)=P(X≤x).F_X(x)=P(X\le x).

É não decrescente, contínua à direita e tende para 0 e 1 quando x tende para −∞-\infty e +∞+\infty. Na variável anterior,

FX(x)={0,x<−1,0,2,−1≤x<0,0,7,0≤x<2,1,x≥2.F_X(x)=\begin{cases} 0,&x<-1,\\ 0,2,&-1\le x<0,\\ 0,7,&0\le x<2,\\ 1,&x\ge2. \end{cases}

O ponto preenchido indica o valor na fronteira; o círculo aberto indica o patamar que termina antes dela. FX(0)=0,7F_X(0)=0,7 e FX(0−)=0,2F_X(0^-)=0,2: a massa no ponto é a diferença, não a altura total.

O salto em x=0x=0 tem tamanho 0,5, igual a P(X=0)P(X=0); em geral,

P(a<X≤b)=FX(b)−FX(a).P(a<X\le b)=F_X(b)-F_X(a).

Para incluir a, subtrai o limite à esquerda: P(a≤X≤b)=FX(b)−FX(a−)P(a\le X\le b)=F_X(b)-F_X(a^-), onde FX(a−)=P(X<a)F_X(a^-)=P(X<a); num modelo discreto, trocar << por ≤\le pode mudar a resposta.

Densidade contínua

Nos modelos contínuos com densidade, fX(x)≥0f_X(x)\ge0 e ∫−∞+∞fX(x) dx=1\int_{-\infty}^{+\infty}f_X(x)\,dx=1. As probabilidades são áreas:

P(a<X<b)=∫abfX(x) dx,FX(x)=∫−∞xfX(u) du.P(a<X<b)=\int_a^b f_X(x)\,dx,\qquad F_X(x)=\int_{-\infty}^x f_X(u)\,du.

Quando a derivada existe, FX′(x)=fX(x)F_X'(x)=f_X(x). Uma altura de densidade pode exceder 1; a área total é que vale 1. Neste modelo, P(X=x)=0P(X=x)=0 para qualquer ponto. Isso não significa que X nunca tome um valor: uma medição cai sempre num ponto, mas cada ponto isolado tem probabilidade nula.

Normalização e mediana de uma densidade

Se fX(x)=cxf_X(x)=cx para 0<x<20<x<2 e zero fora desse intervalo, a condição da área dá

1=∫02cx dx=2c⇒c=12.1=\int_0^2cx\,dx=2c\quad\Rightarrow\quad c=\frac12.

No interior, FX(x)=x2/4F_X(x)=x^2/4. Fora dele, F é 0 para x≤0x\le0 e 1 para x≥2x\ge2. Portanto,

P(1<X<1,5)=1,52−124=0,3125.P(1<X<1,5)=\frac{1,5^2-1^2}{4}=0,3125.

A mediana populacional m satisfaz FX(m)=0,5F_X(m)=0,5, logo m=2m=\sqrt2; não é o ponto médio do suporte, pois a densidade dá mais peso a valores elevados.

Valor esperado e variância

O valor esperado é uma média ponderada pela distribuição, não necessariamente um valor que X possa tomar:

E(X)=∑xxfX(x)ouE(X)=∫−∞+∞xfX(x) dx.E(X)=\sum_x x f_X(x)\quad\text{ou}\quad E(X)=\int_{-\infty}^{+\infty}xf_X(x)\,dx.

Estas fórmulas requerem integrabilidade do valor absoluto para uma média finita; mais geralmente, E(g(X))E(g(X)) obtém-se substituindo x por g(x)g(x) na soma ou integral, pois em geral E(g(X))≠g(E(X))E(g(X))\ne g(E(X)).

A variância é

Var⁡(X)=E[(X−μ)2]=E(X2)−[E(X)]2,\operatorname{Var}(X)=E[(X-\mu)^2]=E(X^2)-[E(X)]^2,

com μ=E(X)\mu=E(X) e segundo momento finito. O desvio padrão é σ=Var⁡(X)\sigma=\sqrt{\operatorname{Var}(X)}.

Na variável discreta com valores −1,0,2-1,0,2,

E(X)=(−1)(0,2)+0(0,5)+2(0,3)=0,4,E(X)=(-1)(0,2)+0(0,5)+2(0,3)=0,4, E(X2)=1(0,2)+0+4(0,3)=1,4,E(X^2)=1(0,2)+0+4(0,3)=1,4, Var⁡(X)=1,4−0,42=1,24.\operatorname{Var}(X)=1,4-0,4^2=1,24.

No exemplo contínuo, E(X)=∫02x(x/2)dx=4/3E(X)=\int_0^2x(x/2)dx=4/3 e E(X2)=∫02x2(x/2)dx=2E(X^2)=\int_0^2x^2(x/2)dx=2. A variância é 2−16/9=2/92-16/9=2/9.

Transformar uma variável

Para Y=aX+bY=aX+b,

E(Y)=aE(X)+b,Var⁡(Y)=a2Var⁡(X),σY=∣a∣σX.E(Y)=aE(X)+b,\quad \operatorname{Var}(Y)=a^2\operatorname{Var}(X),\quad \sigma_Y=|a|\sigma_X.

Se X é a variável discreta anterior e Y=3X−2Y=3X-2, os valores de Y são −5,−2,4-5,-2,4, com as mesmas probabilidades; a média é −0,8-0,8 e a variância é 9(1,24)=11,169(1,24)=11,16.

Para uma transformação não linear, volta à definição, porque a média não passa pela função: se Y=X2Y=X^2, no mesmo exemplo E(Y)=1,4E(Y)=1,4, e não (0,4)2(0,4)^2. Transformar os dados pode ajudar a analisar a forma, mas transforma também o parâmetro que estás a estudar.

Exercícios

Normalizar e calcular a variância

X toma valores 0, 1 e 3 com probabilidades 0,25, c e 0,50. Calcula Var(X).

Pista

As probabilidades somam 1.

Solução

E(X)=0,25+1,5=1,75E(X)=0,25+1,5=1,75, E(X2)=0,25+4,5=4,75E(X^2)=0,25+4,5=4,75. A variância é 4,75−1,752=1,68754,75-1,75^2=1,6875.

Erros frequentes

Não confundir E(X²) com E(X)².

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Área sob uma densidade

Uma densidade é f(x)=2x para 0<x<10<x<1 e zero fora. Calcula P(0,5<X<0,8)P(0,5<X<0,8).

Pista

Integra a densidade entre os limites.

Mais uma pista

A acumulada no suporte é x².

Solução

P=0,82−0,52=0,64−0,25=0,39P=0,8^2-0,5^2=0,64-0,25=0,39. A altura f(0,8)=1,6 pode exceder 1; é uma densidade, não uma probabilidade pontual.

Erros frequentes

Não subtrair alturas f(0,8) e f(0,5) para obter a área.

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Uma acumulada sem salto

F é zero até x=1, cresce linearmente de 0 a 1 entre 1 e 3 e é 1 a partir de 3. Qual é P(X=2)?

Pista

Probabilidade pontual é o tamanho do salto.

Solução

P(X=2)=F(2)−F(2−)=0P(X=2)=F(2)-F(2^-)=0. Já F(2)=0,5F(2)=0,5 é a probabilidade de X não passar de 2.

Erros frequentes

Não usar o valor da acumulada como probabilidade num ponto.

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Distinguir acumulada e salto

O gráfico da acumulada de X salta em 0, 2 e 5, com patamares 0, 0,2 e 0,7 antes dos saltos e valor 1 a partir de 5. Calcula P(X=2)P(X=2) pela diferença entre o valor da acumulada em 2 e o seu limite à esquerda.

Pista

O limite à esquerda de 2 ainda não inclui a massa no ponto 2.

Mais uma pista

O patamar antes de 2 é 0,2, logo F(2−)=P(X<2)=0,2F(2^-)=P(X<2)=0,2.

Solução

P(X=2)=F(2)−F(2−)=0,7−0,2=0,5P(X=2)=F(2)-F(2^-)=0,7-0,2=0,5. Já P(X≤2)=0,7P(X\le2)=0,7 inclui também a massa em zero.

Erros frequentes

Não confundir a altura da acumulada com o tamanho do salto nem usar a regra de probabilidade pontual zero numa variável discreta.

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