Integrais de linha e teorema de Green

Massa de um fio, trabalho, potenciais, circulação, fluxo plano e Green com orientação.

TLDR

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Um fio segue o arco y=x2y=x^2 entre (0,0)(0,0) e (1,1)(1,1). Se a densidade linear for f(x,y)=xf(x,y)=x, a massa resulta de somar f dsf\,ds, onde dsds mede comprimento. Percorrer o fio ao contrário conserva essa massa.

O trabalho de uma força usa outro elemento: F⋅dr\mathbf F\cdot d\mathbf r, que mede a contribuição da força ao longo do deslocamento. Aqui, inverter o percurso troca o sinal. Esta distinção decide como montar o integral.

Integral de linha escalar

Para uma curva regular por troços r(t)\mathbf r(t), a≤t≤ba\le t\le b,

∫Cf ds=∫abf(r(t))∥r′(t)∥ dt.\int_C f\,ds=\int_a^b f(\mathbf r(t))\|\mathbf r'(t)\|\,dt.

Se ff é densidade por unidade de comprimento, o resultado é massa. Para f=1f=1, dá o comprimento. Inverter a orientação não muda o valor.

No arco y=x2y=x^2 de (0,0)(0,0) a (1,1)(1,1), escolhe r(t)=(t,t2)\mathbf r(t)=(t,t^2), 0≤t≤10\le t\le1. Com densidade f=xf=x, temos

∫Cx ds=∫01t1+4t2 dt=55−112.\int_C x\,ds=\int_0^1t\sqrt{1+4t^2}\,dt =\frac{5\sqrt5-1}{12}.

A substituição u=1+4t2u=1+4t^2 dá du=8t dtdu=8t\,dt, e a primitiva é u3/2/12u^{3/2}/12. O fator raiz vem da velocidade, não da densidade.

Integral de linha vetorial e trabalho

Para F=(P,Q,R)\mathbf F=(P,Q,R), usa

∫CF⋅dr=∫abF(r(t))⋅r′(t) dt=∫CP dx+Q dy+R dz.\int_C\mathbf F\cdot d\mathbf r =\int_a^b\mathbf F(\mathbf r(t))\cdot\mathbf r'(t)\,dt =\int_C P\,dx+Q\,dy+R\,dz.

Inverter a orientação troca o sinal. O integral escalar usa ds=∥r′∥ dtds=\|\mathbf r'\|\,dt e ignora o sentido; o integral vetorial usa dr=r′ dtd\mathbf r=\mathbf r'\,dt e muda de sinal. Dividir a curva em troços soma os integrais, respeitando o sentido de cada um.

Para F=(y,0)\mathbf F=(y,0) da origem a (1,1)(1,1), na diagonal r=(t,t)\mathbf r=(t,t) o integrando é tt, e o trabalho é 1/21/2. Pelos eixos, primeiro até (1,0)(1,0) e depois até (1,1)(1,1), cada trabalho é zero. O campo não é conservativo, por isso o percurso altera o resultado.

Campos gradiente e independência do caminho

Um campo é conservativo se F=∇ϕ\mathbf F=\nabla\phi para um potencial ϕ\phi. Pela cadeia temos

∫CF⋅dr=ϕ(B)−ϕ(A).\int_C\mathbf F\cdot d\mathbf r=\phi(B)-\phi(A).

Escolher uma curva complicada deixa de ser necessário. Para F=(2xy+z,x2,x)\mathbf F=(2xy+z,x^2,x), integra a primeira componente em xx: ϕ=x2y+xz+c(y,z)\phi=x^2y+xz+c(y,z). Comparar ϕy=x2+cy\phi_y=x^2+c_y com a segunda componente dá cy=0c_y=0; comparar ϕz=x+cz\phi_z=x+c_z com a terceira dá cz=0c_z=0. Assim, ϕ=x2y+xz+C\phi=x^2y+xz+C. De (0,0,0)(0,0,0) a (1,2,3)(1,2,3), o trabalho é 5.

Em duas dimensões, Py=QxP_y=Q_x é necessário para um potencial C2C^2. Com componentes C1C^1 num aberto simplesmente conexo, é também suficiente. Em três dimensões, o teste é ∇×F=0\nabla\times\mathbf F=0 com condições análogas.

O domínio importa. O campo (−y/(x2+y2),x/(x2+y2))(-y/(x^2+y^2),x/(x^2+y^2)) tem derivadas cruzadas iguais fora da origem, mas o integral na circunferência unitária anti-horária é 2π2\pi. A origem excluída impede concluir que é conservativo em todo esse domínio.

Teorema de Green

Se DD tem fronteira simples, fechada e regular por troços, orientada com a região à esquerda, e P,QP,Q são C1C^1 numa vizinhança da região e da fronteira, a circulação no bordo iguala o integral das derivadas cruzadas,

∮∂DP dx+Q dy=∬D(Qx−Py) dA.\oint_{\partial D}P\,dx+Q\,dy=\iint_D(Q_x-P_y)\,dA.

Para F=(−y,x)\mathbf F=(-y,x) e o círculo de raio aa, Qx−Py=2Q_x-P_y=2. A circulação é 2πa22\pi a^2. Diretamente, (acos⁡t,asin⁡t)(a\cos t,a\sin t) dá integrando constante a2a^2, confirmando o sinal positivo. No sentido horário o valor é −2πa2-2\pi a^2.

Para uma região com buracos, a fronteira exterior é anti-horária e cada fronteira interior horária. Green continua a aplicar-se com as hipóteses de regularidade em toda a região, ou seja, não permite atravessar uma singularidade do campo.

Área e fluxo no plano

Escolher P=−y/2P=-y/2 e Q=x/2Q=x/2 dá Qx−Py=1Q_x-P_y=1, logo

aˊrea(D)=12∮∂D(x dy−y dx).\text{área}(D)=\frac12\oint_{\partial D}(x\,dy-y\,dx).

Também podemos escolher (P,Q)=(0,x)(P,Q)=(0,x) ou (P,Q)=(−y,0)(P,Q)=(-y,0): em ambos os casos, Qx−Py=1Q_x-P_y=1, por isso a área é ∮x dy\oint x\,dy ou −∮y dx-\oint y\,dx, respetivamente. A média destas duas expressões dá a fórmula simétrica anterior. As três exigem a mesma orientação positiva; no sentido contrário, dão o negativo da área. Escolhe a que simplificar a parametrização, em vez de memorizar apenas uma forma.

Na elipse (acos⁡t,bsin⁡t)(a\cos t,b\sin t), o integrando xy′−yx′=abx y'-y x'=ab dá área πab\pi ab.

Para a mesma orientação positiva, o fluxo para fora de F=(P,Q)\mathbf F=(P,Q) é

∮∂DF⋅n ds=∮∂DP dy−Q dx=∬D(Px+Qy) dA.\oint_{\partial D}\mathbf F\cdot\mathbf n\,ds =\oint_{\partial D}P\,dy-Q\,dx =\iint_D(P_x+Q_y)\,dA.

Para F=(x,y)\mathbf F=(x,y) no círculo de raio aa, dá 2πa22\pi a^2. Este é fluxo através da fronteira, enquanto ∮P dx+Q dy\oint P\,dx+Q\,dy é circulação ao longo dela. Identifica a grandeza antes de escolheres a fórmula.

Exercícios

Densidade e comprimento

Num fio com parametrização r(t)=(3t,4t)\mathbf r(t)=(3t,4t), 0≤t≤10\le t\le1, a densidade linear é f(x,y)=xf(x,y)=x. Qual é a massa?

Pista
O elemento de comprimento é a norma da velocidade vezes dt.
Mais uma pista
A velocidade escalar é 5 e a densidade ao longo do fio é 3t.
Solução

A massa é ∫01(3t)5 dt=15/2=7,5\int_0^1(3t)5\,dt=15/2=7{,}5. A densidade média é 3/23/2 e o comprimento é 5, o que confirma o resultado. Se inverteres a orientação, a massa não muda.

Erros frequentes

Se integrares apenas 3t, esqueces o elemento de comprimento. Se usares dx em vez de ds, obténs o fator 3 em vez da velocidade escalar 5.
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Trabalho só pelos extremos

Calcula o trabalho de F=(2xy+z,x2,x)\mathbf F=(2xy+z,x^2,x) de (0,0,0) a (1,2,3), por qualquer curva regular por troços.

Pista

Procura um potencial começando por integrar a primeira componente em x.

Mais uma pista
Tenta ϕ=x2y+xz\phi=x^2y+xz e confere as três derivadas.
Solução

A função é um potencial em todo o espaço. O trabalho é ϕ(1,2,3)−ϕ(0,0,0)=2+3=5\phi(1,2,3)-\phi(0,0,0)=2+3=5.

Erros frequentes

As componentes do campo não são os valores do potencial. Confere as três, não só uma.

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Circulação por parametrização e Green

Para F=(−y,x)\mathbf F=(-y,x) na circunferência de raio 11 anti-horária, calcula a circulação por parametrização e por Green. O que muda no sentido horário?

Pista
Direto dá integrando constante 11; Green dá Qx−Py=2Q_x-P_y=2.
Mais uma pista
A área do disco é π\pi.
Solução

Com r=(cos⁡t,sin⁡t)\mathbf r=(\cos t,\sin t) e r′=(−sin⁡t,cos⁡t)\mathbf r\prime=(-\sin t,\cos t), o produto com F\mathbf F é sin⁡2t+cos⁡2t=1\sin^2t+\cos^2t=1. Direto: ∫02π1 dt=2π\int_0^{2\pi}1\,dt=2\pi. Green: ∬D2 dA=2π\iint_D2\,dA=2\pi. No sentido horário, ambos dão −2π-2\pi. Green só poupa trabalho porque o campo é C1C^1 em todo o disco.

Confere a tua resposta:

  • Calculei por parametrização direta.
  • Confirmei por Green com a orientação certa.
  • Expliquei quando cada via é mais curta.

Erros frequentes

Green com orientação trocada muda o sinal. No campo com singularidade na origem, a mesma conta falha pela hipótese do domínio.

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Derivadas nulas com circulação não nula

Para F=(−y/(x2+y2),x/(x2+y2))\mathbf F=(-y/(x^2+y^2),x/(x^2+y^2)), calcula a circulação na circunferência de raio 2, anti-horária. Fora da origem, Qx−Py=0Q_x-P_y=0. Por que não podemos aplicar Green ao disco e obter zero?

Pista
Usa r(t)=(2cos⁡t,2sin⁡t)\mathbf r(t)=(2\cos t,2\sin t), entre 0 e 2π2\pi.
Mais uma pista

O campo ao longo da curva é (−sin⁡t/2,cos⁡t/2)(-\sin t/2,\cos t/2); faz o produto escalar com a velocidade.

Solução

O produto escalar é sin⁡2t+cos⁡2t=1\sin^2t+\cos^2t=1, logo a circulação vale 2π2\pi. O campo não está definido na origem, que pertence ao disco. Falha a hipótese de classe C1C^1 numa vizinhança de toda a região. Se houvesse um potencial no plano sem a origem, todos os integrais fechados nesse domínio seriam zero.

Confere a tua resposta:

  • Calculei o integral diretamente.
  • Identifiquei a singularidade no disco.
  • Expliquei por que não há potencial no domínio completo.

Erros frequentes

O campo estar definido na curva não basta para Green. Verifica também a região interior.

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Demonstrar e escolher a fórmula de área

Seja CC o bordo positivo de uma região limitada DD, simples e regular por troços. Demonstra por Green que a área é ∮Cx dy\oint_Cx\,dy e também −∮Cy dx-\oint_Cy\,dx. Deduz a fórmula simétrica e usa-a na elipse (x,y)=(2+3cos⁡t,−1+2sin⁡t)(x,y)=(2+3\cos t,-1+2\sin t), 0≤t≤2π0\le t\le2\pi. O que muda se a percorreres ao contrário?

Pista
Escolhe primeiro P=0P=0, Q=xQ=x, depois P=−yP=-y, Q=0Q=0.
Solução

Estes campos são C1C^1 em todo o plano e em ambos Qx−Py=1Q_x-P_y=1. Com DD à esquerda de quem percorre o bordo, Green dá

∮Cx dy=∬D1 dA=A(D).\oint_Cx\,dy=\iint_D1\,dA=A(D).

A segunda escolha dá

−∮Cy dx=∬D1 dA=A(D).-\oint_Cy\,dx=\iint_D1\,dA=A(D).

Somar as duas igualdades e dividir por 2 produz A(D)=12∮C(x dy−y dx)A(D)=\frac12\oint_C(x\,dy-y\,dx). Na parametrização indicada, x′=−3sin⁡tx'=-3\sin t e y′=2cos⁡ty'=2\cos t, pelo que

xy′−yx′=6+4cos⁡t−3sin⁡t.xy'-yx'=6+4\cos t-3\sin t.

Os senos e cossenos integram a zero numa volta completa. Assim, A=12(6⋅2π)=6πA=\frac12(6\cdot2\pi)=6\pi, também o produto dos semieixos 3 e 2 vezes π\pi. A translação do centro não muda a área. Inverter o sentido dá −6π-6\pi nos integrais orientados; a área geométrica continua a ser 6π6\pi. A hipótese de orientação faz parte da fórmula.

Confere a tua resposta:

  • Indiquei as hipóteses de Green e a orientação positiva.
  • Escolhi campos cujas derivadas cruzadas dão 1.
  • Deduzi a fórmula simétrica a partir das outras duas.
  • Verifiquei a área e o efeito de inverter o sentido.
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