Limites e continuidade em várias variáveis

Domínios, níveis, quádricas, topologia elementar e provas de limites.

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A função f(x,y)=log⁡(x2+y2−1)/4−x2−y2f(x,y)=\log(x^2+y^2-1)/\sqrt{4-x^2-y^2} só pode ser calculada onde o logaritmo e o denominador fazem sentido. Esse conjunto de pontos é o domínio. Antes de estudar um limite, precisamos de saber por onde podemos aproximar-nos do ponto.

Uma temperatura T(x,y,z)T(x,y,z) é um campo escalar, pois associa um número a cada posição. Uma velocidade v(x,y,z)\mathbf v(x,y,z) é um campo vetorial, pois associa um vetor. Em ambos os casos, o domínio pertence ao espaço das posições, não ao dos valores obtidos.

Domínio, interior e fronteira

Para f(x,y)=log⁡(x2+y2−1)/4−x2−y2f(x,y)=\log(x^2+y^2-1)/\sqrt{4-x^2-y^2}, o logaritmo exige x2+y2>1x^2+y^2>1 e o denominador exige x2+y2<4x^2+y^2<4. O domínio é o anel aberto 1<x2+y2<41<x^2+y^2<4; as duas circunferências são fronteira, mas não pertencem ao domínio.

Uma bola aberta de centro aa e raio r>0r>0 reúne os pontos xx com ∥x−a∥<r\|x-a\|<r. Um ponto é interior se uma bola suficientemente pequena centrada nele cabe no conjunto. Um ponto é de fronteira se qualquer bola centrada nele encontra tanto o conjunto como o seu complemento.

Um conjunto é aberto se todos os seus pontos são interiores; é fechado se contém todos os seus pontos de fronteira. Limitado significa contido numa bola de raio finito. Em Rn\mathbb R^n, um conjunto fechado e limitado é compacto. Estas condições vão garantir a existência de extremos absolutos mais adiante.

Curvas e superfícies de nível

A curva de nível f(x,y)=cf(x,y)=c reúne os pontos com o mesmo valor. Para f=x2+y2f=x^2+y^2, níveis positivos são circunferências de raio c\sqrt c, o nível 0 é um ponto e níveis negativos são vazios. Para f=xyf=xy, níveis não nulos são hipérboles; o nível zero é a união dos eixos.

Em três variáveis, x2+y2+z2=cx^2+y^2+z^2=c descreve superfícies de nível esféricas para c>0c>0. Para c=0c=0 reduz-se à origem; para c<0c<0 o conjunto é vazio. Não confundas o gráfico de f:R2→Rf:\mathbb R^2\to\mathbb R, que vive em três dimensões, com as suas curvas de nível, que vivem no domínio plano.

Reconhecer quádricas pelos cortes

Fixa uma coordenada para obteres um corte e depois junta os cortes. Os sinais e os cortes distinguem as famílias:

EquaçãoSuperfícieCorte útil
x2+y2+z2=1x^2+y^2+z^2=1Esferaz=cz=c dá círculo de raio 1−c2\sqrt{1-c^2}, se ∣c∣≤1\lvert c\rvert\le1.
z=x2+y2z=x^2+y^2Paraboloide elípticoz=c>0z=c>0 dá círculo; cortes verticais dão parábolas.
z=x2−y2z=x^2-y^2Paraboloide hiperbólicoEm y=0y=0 abre para cima; em x=0x=0 abre para baixo.
x2+y2−z2=1x^2+y^2-z^2=1Hiperboloide de uma folhaTodo z=cz=c dá um círculo.
z2−x2−y2=1z^2-x^2-y^2=1Hiperboloide de duas folhasSó há pontos quando ∣z∣≥1\lvert z\rvert\ge1.
z2=x2+y2z^2=x^2+y^2Cone duploz=cz=c dá círculo de raio ∣c∣\lvert c\rvert.
x2+y2=1x^2+y^2=1CilindroA ausência de zz permite transladar cada ponto nessa direção.

Translações mudam o centro; coeficientes positivos diferentes mudam raios para semieixos.

Limites e caminhos de aproximação

Estudamos limites em pontos de acumulação do domínio: qualquer bola centrada em a\mathbf a deve conter um ponto do domínio diferente de a\mathbf a. O limite lim⁡x→af(x)=L\lim_{\mathbf x\to\mathbf a}f(\mathbf x)=L exige que, para todo ε>0\varepsilon>0, exista δ>0\delta>0 tal que

0<∥x−a∥<δ⟹∣f(x)−L∣<ε,0<\|\mathbf x-\mathbf a\|<\delta\quad\Longrightarrow\quad |f(\mathbf x)-L|<\varepsilon,

para pontos do domínio. A mesma escolha de δ\delta tem de funcionar em todas as direções. O valor no ponto não entra no limite.

Para f(x,y)=xy/(x2+y2)f(x,y)=xy/(x^2+y^2) fora da origem, y=0y=0 dá 0, mas y=xy=x dá 1/21/2. Dois caminhos incompatíveis provam que o limite não existe.

Testar apenas retas pode falhar. Em g(x,y)=x2y/(x4+y2)g(x,y)=x^2y/(x^4+y^2), para uma reta y=mxy=mx com m≠0m\ne0,

g(x,mx)=mx3x4+m2x2=mxx2+m2⟶0.g(x,mx)=\frac{mx^3}{x^4+m^2x^2}=\frac{mx}{x^2+m^2}\longrightarrow0.

No eixo horizontal e no vertical, g=0g=0 fora da origem. Porém, na parábola y=x2y=x^2, o valor é x4/(2x4)=1/2x^4/(2x^4)=1/2. A parábola equilibra os dois termos do denominador e revela o caminho que as retas perderam.

Limites iterados

Num limite iterado, uma variável aproxima-se primeiro, mantendo a outra fixa. Para f(x,y)=xy/(x2+y2)f(x,y)=xy/(x^2+y^2), fixar x≠0x\ne0 e fazer y→0y\to0 dá 0, e depois fazer x→0x\to0 continua a dar 0. Trocar a ordem dá o mesmo valor.

Apesar disso, o limite conjunto não existe, porque a diagonal dá 1/21/2. Limites iterados iguais não controlam aproximações em que as duas coordenadas variam juntas. Se os iterados existem e são diferentes, também não pode existir um limite conjunto. Só se podem identificar com o limite conjunto quando este existe e os limites interiores relevantes também existem.

Provar um limite com uma estimativa

Para h(x,y)=x2y/(x2+y2)h(x,y)=x^2y/(x^2+y^2), queremos provar limite 0. Como x2/(x2+y2)≤1x^2/(x^2+y^2)\le1, temos

∣h(x,y)∣≤∣y∣≤x2+y2.|h(x,y)|\le |y|\le\sqrt{x^2+y^2}.

Se a distância à origem é menor que δ=ε\delta=\varepsilon, o erro é menor que ε\varepsilon. A estimativa cobre todos os caminhos.

Em polares, x=rcos⁡θx=r\cos\theta, y=rsin⁡θy=r\sin\theta, a mesma expressão é rcos⁡2θsin⁡θr\cos^2\theta\sin\theta, cujo módulo é no máximo rr. O fator que tende a zero tem de controlar a expressão uniformemente em θ\theta, ou seja, não chega fixares um ângulo e calculares um limite.

Continuidade e funções vetoriais

Num ponto de acumulação do domínio, ff é contínua em a\mathbf a se está definida nesse ponto e o limite vale f(a)f(\mathbf a). Num ponto isolado do domínio, a continuidade é automática: uma bola pequena não contém outros pontos do domínio. A extensão h(0,0)=0h(0,0)=0 é contínua; a extensão com valor 1 não é. Somas, produtos e composições de funções contínuas são contínuos no seu domínio; nos quocientes exige-se denominador não nulo.

Para F=(F1,…,Fm)\mathbf F=(F_1,\ldots,F_m), o limite e a continuidade verificam-se componente a componente. Se uma componente não tem limite, o campo também não tem. Ter derivadas parciais no ponto não garante continuidade, como mostra a página sobre derivadas e diferenciabilidade.

Exercícios

Ler as duas restrições do domínio

Descreve o domínio de f(x,y)=log⁡(9−x2−y2)/x2+y2−4f(x,y)=\log(9-x^2-y^2)/\sqrt{x^2+y^2-4} e diz se é aberto, fechado e limitado.

Pista
O argumento do logaritmo tem de ser positivo.
Mais uma pista
A raiz está no denominador, por isso o seu argumento tem de ser estritamente positivo.
Solução
O domínio é 4<x2+y2<94<x^2+y^2<9, um anel aberto e limitado, não fechado. A fronteira é a união das circunferências de raios 2 e 3, excluídas do domínio.

Confere a tua resposta:

  • Escrevi a condição do logaritmo.
  • Excluí os zeros do denominador.
  • Identifiquei interior e fronteira.

Erros frequentes

Uma raiz no numerador permitiria zero; no denominador, não. Limitado não significa fechado.
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Um caminho que as retas não mostram

Estuda o limite na origem de x2y/(x4+y2)x^2y/(x^4+y^2). Calcula também os dois limites iterados. Concordarem permite concluir que existe o limite conjunto?

Pista

Compara o eixo y=0y=0 com uma curva onde x4x^4 e y2y^2 tenham a mesma ordem.

Mais uma pista
Tenta y=x2y=x^2.
Solução

No eixo, o valor é 0. Na parábola, é x4/(2x4)=1/2x^4/(2x^4)=1/2. O limite não existe. Para xx fixo não nulo, fazer y→0y\to0 dá 0; para yy fixo não nulo, fazer x→0x\to0 também dá 0. Os dois limites iterados são 0. Nem essa concordância nem a das retas controla os caminhos curvos.

Confere a tua resposta:

  • Comparei dois caminhos admissíveis.
  • Calculei ambos os limites iterados.
  • Expliquei por que retas e iterados iguais não bastam.

Erros frequentes

Não substituas a existência de limite por uma lista finita de caminhos. Para refutar, dois resultados diferentes bastam.

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Provar continuidade numa extensão

Define f(0,0)=0f(0,0)=0 e f(x,y)=x3/(x2+y2)f(x,y)=x^3/(x^2+y^2) fora da origem. Prova que é contínua na origem.

Pista
Usa x2/(x2+y2)≤1x^2/(x^2+y^2)\le1.
Mais uma pista
Deduz ∣f(x,y)∣≤∣x∣≤x2+y2|f(x,y)|\le|x|\le\sqrt{x^2+y^2}.
Solução
Para ε>0\varepsilon>0, escolhe δ=ε\delta=\varepsilon. Se a distância à origem está entre 0 e δ\delta, o módulo de f é menor que ε\varepsilon. O limite é 0, igual a f(0,0)f(0,0). Em polares, f=rcos⁡3θf=r\cos^3\theta, logo ∣f∣≤r|f|\le r uniformemente em θ\theta; fixar um ângulo só verifica uma direção.

Confere a tua resposta:

  • Dei uma estimativa em função da distância.
  • Escolhi delta em função de epsilon.
  • Comparei o limite com o valor definido na origem.

Erros frequentes

Testar só os eixos não prova a existência do limite. A estimativa tem de cobrir todos os pontos próximos do domínio.

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