Conteúdos da cadeira

Limites e continuidade em várias variáveis

Domínios, curvas de nível, limites por caminhos e continuidade de campos escalares.

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Um campo escalar f:DRnRf: D \subset \mathbb{R}^n \to \mathbb{R} atribui um número a cada ponto de uma região do plano ou do espaço (temperatura em cada ponto de uma chapa, altitude em cada ponto de um mapa). Antes de derivar ou integrar, é preciso saber onde a função existe, como se comporta perto de cada ponto e se tem saltos. Esta página trata dessas três perguntas.

Domínio: onde a função existe

O domínio é o conjunto dos pontos onde a expressão faz sentido: denominadores não nulos, raízes de argumentos não negativos, logaritmos de argumentos positivos.

Para f(x,y)=ln(16x2y2)+x2+y24f(x, y) = \ln(16 - x^2 - y^2) + \sqrt{x^2 + y^2 - 4}, as duas parcelas impõem 16x2y2>016 - x^2 - y^2 > 0 e x2+y240x^2 + y^2 - 4 \geq 0. Juntas, 4x2+y2<164 \leq x^2 + y^2 < 16: um anel (coroa circular) centrado na origem, incluindo a circunferência interior de raio 22 e excluindo a exterior de raio 44.

Curvas de nível: ver a função sem 3D

Fixar f(x,y)=cf(x, y) = c e desenhar o conjunto resultante no plano dá uma curva de nível. O conjunto das curvas de nível é o mapa de contornos da função: curvas próximas significam variação rápida (como curvas de nível apertadas numa encosta íngreme).

Para o paraboloide f(x,y)=x2+y2f(x, y) = x^2 + y^2, a curva de nível c>0c > 0 é a circunferência x2+y2=cx^2 + y^2 = c de raio c\sqrt{c}, e o nível 00 é só a origem. Para f(x,y)=xyf(x, y) = xy, o nível 00 são os dois eixos e os outros níveis são hipérboles. Se as curvas de nível se cruzam ou mudam de topologia num ponto, esse ponto merece atenção redobrada nos limites.

Limites: chegar ao ponto por todo o lado

Dizer que lim(x,y)(a,b)f(x,y)=L\lim_{(x,y) \to (a,b)} f(x, y) = L significa que f(x,y)f(x, y) fica arbitrariamente próximo de LL sempre que (x,y)(x, y) está suficientemente próximo de (a,b)(a, b), venha de que direção vier. No plano há infinitos caminhos de aproximação, e basta um caminho discordante para o limite não existir.

Considera

f(x,y)={xyx2+y2,(x,y)(0,0),0,(x,y)=(0,0).f(x, y) = \begin{cases} \dfrac{xy}{x^2 + y^2}, & (x, y) \neq (0, 0), \\ 0, & (x, y) = (0, 0). \end{cases}

Ao longo do eixo y=0y = 0, a função vale 00, por isso o limite por esse caminho é 00. Mas ao longo da reta y=xy = x, vale x2/(2x2)=1/2x^2/(2x^2) = 1/2 para x0x \neq 0, logo o limite por esse caminho é 1/21/2. Dois caminhos, dois valores: o limite na origem não existe.

Por vezes o caminho que denuncia o problema não é uma reta. Para g(x,y)=x2y/(x4+y2)g(x, y) = x^2y/(x^4 + y^2), todos os limites ao longo de retas y=mxy = mx valem 00, mas ao longo da parábola y=x2y = x^2 obtemos x4/(2x4)=1/2x^4/(2x^4) = 1/2. O limite não existe, e só a parábola o revelou. Quando as retas concordam todas, experimenta parábolas y=x2y = x^2 ou x=y2x = y^2 antes de conjeturar a existência.

Continuidade e o teorema do aperto

A função é contínua em (a,b)(a, b) quando o limite existe e coincide com o valor da função:

lim(x,y)(a,b)f(x,y)=f(a,b).\lim_{(x,y) \to (a,b)} f(x, y) = f(a, b).

Somas, produtos, quocientes (com denominador não nulo) e compostas de funções contínuas são contínuas, por isso polinómios, exponenciais e funções trigonométricas nos seus domínios não dão trabalho: basta substituir.

O caso interessante é a origem de uma função definida por ramos. Para

h(x,y)={x2yx2+y2,(x,y)(0,0),0,(x,y)=(0,0),h(x, y) = \begin{cases} \dfrac{x^2 y}{x^2 + y^2}, & (x, y) \neq (0, 0), \\ 0, & (x, y) = (0, 0), \end{cases}

observa que x2y=x2y(x2+y2)y|x^2 y| = x^2|y| \leq (x^2 + y^2)|y|, logo

h(x,y)0(x2+y2)yx2+y2=yx2+y2.|h(x, y) - 0| \leq \frac{(x^2 + y^2)|y|}{x^2 + y^2} = |y| \leq \sqrt{x^2 + y^2}.

Quando (x,y)(x, y) tende para (0,0)(0,0), o majorante tende para 00, por isso o limite é 0=h(0,0)0 = h(0, 0) e a função é contínua na origem. Esta técnica (majorar o módulo por algo que tende para zero) é o teorema do aperto aplicado a limites: funciona para todos os caminhos de uma só vez.

Falhas frequentes

A mais grave é concluir existência a partir de alguns caminhos, como explicado acima. Outra é esquecer o domínio: estudar lim(x,y)(0,0)ln(yx3)\lim_{(x,y)\to(0,0)} \ln(y - x - 3) não faz sentido porque a origem nem pertence ao domínio (3<0-3 < 0). E atenção às coordenadas polares: escrever x=rcosθx = r\cos\theta, y=rsinθy = r\sin\theta e fazer r0r \to 0 só prova o limite se a estimativa final não depender de θ\theta; um majorante como cosθ/r|\cos\theta|/r não serve.

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