Uma equação diferencial ordinária (EDO) envolve uma função desconhecida y(x) e as suas derivadas. A ordem é a da derivada mais alta. Resolver é encontrar as funções que satisfazem a equação, em geral uma família com constantes (solução geral); fixar as constantes com condições como y(x0)=y0 dá uma solução particular. A estratégia é classificar a equação e aplicar o método da família.
Variáveis separáveis
Se a equação se escreve como y′=f(x)g(y), separa-se y de x:
g(y)dy=f(x)dx,
e integra-se cada lado. Exemplo: y′=2xy com y(0)=3. Separando (para y=0):
ydy=2xdx,ln∣y∣=x2+C,y=Kex2.
A condição y(0)=3 dá K=3, logo y=3ex2. Confirma: y′=6xex2=2x(3ex2)=2xy. Certo. Perder a solução y=0 ao dividir por g(y) é o erro clássico: verifica sempre se os zeros de g são soluções.
Equações homogéneas de primeira ordem
Uma EDO de primeira ordem é homogénea quando se escreve como y′=F(y/x), isto é, depende apenas do quociente y/x. A substituição v=y/x (logo y=vx e y′=v+xv′) transforma-a numa equação separável em v e x.
Exemplo: y′=(x2+y2)/(xy), que é (x/y)+(y/x). Com v=y/x:
v+xdxdv=v1+v,xdxdv=v1,vdv=xdx.
Integrando: v2/2=ln∣x∣+C, e voltando a v=y/x:
y2=2x2(ln∣x∣+C).
Derivar para confirmar é trabalhoso, mas a estrutura garante: cada passo foi equivalência para x=0 e y=0.
Lineares de primeira ordem e Bernoulli
A EDO linear de primeira ordem y′+P(x)y=Q(x) resolve-se com o fator integrante μ(x)=e∫P(x)dx, que condensa o lado esquerdo numa derivada de produto:
dxd(μy)=μQ,y=μ1∫μQdx.
Exemplo: y′+2y=ex. O fator é μ=e2x, logo (e2xy)′=e3x, donde e2xy=e3x/3+C e y=ex/3+Ce−2x. Confirma: y′+2y=ex/3−2Ce−2x+2ex/3+2Ce−2x=ex. Certo.
A equação de Bernoulli, y′+P(x)y=Q(x)yn com n=0,1, reduz-se a linear com v=y1−n. Exemplo completo: y′+x1y=xy2. Aqui n=2, logo v=y−1 e v′=−y′/y2. Dividindo a equação por y2:
−v′+x1v=x,v′−x1v=−x.
É linear em v com fator μ=e∫−1/xdx=1/x. Então (v/x)′=−1, logo v/x=−x+C e v=Cx−x2. Voltando a y:
y=Cx−x21.
Confirmação: com D=Cx−x2, y′=−(C−2x)/D2 e y′/y2… mais diretamente, y′+y/x=[−(C−2x)+D/x]/D2=[−(C−2x)+C−x]/D2=x/D2=xy2. Certo.
A equação homogénea ay′′+by′+cy=0 resolve-se pela equação característica ar2+br+c=0:
- raízes reais distintas r1,r2: y=C1er1x+C2er2x;
- raiz dupla r: y=(C1+C2x)erx;
- raízes complexas α±iβ: y=eαx(C1cosβx+C2sinβx).
Exemplo: y′′+7y′+10y=0. A característica r2+7r+10=0 tem raízes r=−2 e r=−5, logo y=C1e−2x+C2e−5x. Verifica um termo: (4−14+10)e−2x=0. Certo.
Para a não homogénea ay′′+by′+cy=f(x), a solução geral é y=yh+yp: a solução da homogénea mais uma solução particular. O método dos coeficientes indeterminados propõe yp com a forma de f (polinómio, exponencial, seno ou cosseno) quando os coeficientes são constantes. Exemplo: y′′−3y′+2y=e3x. Propõe yp=Ae3x: substituindo, 9A−9A+2A=1, logo A=1/2 e yp=e3x/2. Se f fosse solução da homogénea (ressonância), multiplicar-se-ia a proposta por x.
Quando só se conhece uma solução da homogénea com coeficientes não constantes, a redução de ordem procura a segunda na forma y2=v(x)y1(x).
Para onde ir
As EDOs lineares com coeficientes constantes têm um método alternativo de resolução, por vezes mais rápido, baseado numa transformação integral: a transformada de Laplace.