Conteúdos da cadeira

Teoremas do valor médio, L'Hôpital e diferencial

Teoremas de Lagrange e Cauchy, levantamento de indeterminações com L'Hôpital e a noção de diferencial para aproximações.

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A derivada mede variação instantânea, mas os teoremas desta página fazem a ponte contrária: a partir da derivada, garantem propriedades da função num intervalo. É daqui que saem a regra de L’Hôpital para limites difíceis e a aproximação linear que está por trás do diferencial.

Teorema de Lagrange

O teorema dos acréscimos finitos (Lagrange) diz o seguinte: se ff é contínua em [a,b][a, b] e diferenciável em ]a,b[]a, b[, então existe pelo menos um ponto cc entre aa e bb tal que

f(c)=f(b)f(a)ba.f'(c) = \frac{f(b) - f(a)}{b - a}.

Em palavras, a taxa de variação média num intervalo é atingida como taxa instantânea nalgum ponto interior. Geometricamente, há um ponto onde a tangente é paralela à secante que une (a,f(a))(a, f(a)) a (b,f(b))(b, f(b)).

As hipóteses importam. A continuidade nos extremos e a diferenciabilidade no interior são ambas necessárias: com um salto ou um bico, o ponto cc pode não existir.

Um exemplo verificável: f(x)=x2f(x) = x^2 em [1,3][1, 3]. A taxa média vale (91)/(31)=4(9 - 1)/(3 - 1) = 4. Como f(x)=2xf'(x) = 2x, procuramos cc com 2c=42c = 4, ou seja c=2c = 2, que está de facto entre 11 e 33.

Uma consequência que vais usar muitas vezes: se f(x)=0f'(x) = 0 em todo um intervalo, então ff é constante aí. Basta aplicar Lagrange a qualquer par de pontos: f(b)f(a)=0f(b) - f(a) = 0.

Teorema de Cauchy e regra de L’Hôpital

O teorema de Cauchy generaliza Lagrange a duas funções: se ff e gg são contínuas em [a,b][a, b], diferenciáveis em ]a,b[]a, b[ e g(x)0g'(x) \ne 0 no interior, então existe cc tal que

f(b)f(a)g(b)g(a)=f(c)g(c).\frac{f(b) - f(a)}{g(b) - g(a)} = \frac{f'(c)}{g'(c)}.

Quando g(x)=xg(x) = x, recuperamos Lagrange. A importância de Cauchy é que dele segue a regra de L’Hôpital: para indeterminações do tipo 0/00/0 ou /\infty/\infty,

limxaf(x)g(x)=limxaf(x)g(x),\lim_{x \to a} \frac{f(x)}{g(x)} = \lim_{x \to a} \frac{f'(x)}{g'(x)},

desde que o limite da direita exista (finito ou infinito) e g(x)0g'(x) \ne 0 perto de aa. A regra vale também para limites laterais e para x±x \to \pm\infty.

Exemplo com verificação completa. Para calcular

limx0ex1xx2,\lim_{x \to 0} \frac{e^x - 1 - x}{x^2},

substituir dá 0/00/0. Derivando numerador e denominador:

limx0ex12x,\lim_{x \to 0} \frac{e^x - 1}{2x},

que ainda é 0/00/0. Aplicamos outra vez:

limx0ex2=12.\lim_{x \to 0} \frac{e^x}{2} = \frac{1}{2}.

Cada aplicação exige confirmar a indeterminação antes de derivar. Derivar o quociente diretamente (regra do quociente) em vez de derivar numerador e denominador em separado é o erro mais comum aqui.

Diferencial e aproximação linear

Se y=f(x)y = f(x) é diferenciável, o diferencial dydy é a variação ao longo da reta tangente quando xx varia de dxdx:

dy=f(x)dx.dy = f'(x) \, dx.

Enquanto Δy=f(x+Δx)f(x)\Delta y = f(x + \Delta x) - f(x) é a variação exata, o diferencial dá a aproximação Δyf(x)Δx\Delta y \approx f'(x)\Delta x, boa quando Δx\Delta x é pequeno. É a mesma ideia do polinómio de Taylor de grau 1, que vamos desenvolver na página sobre Taylor.

Um cálculo típico: aproximar 4,02\sqrt{4{,}02}. Toma f(x)=xf(x) = \sqrt{x} e x=4x = 4, com Δx=0,02\Delta x = 0{,}02. Como f(x)=1/(2x)f'(x) = 1/(2\sqrt{x}), temos f(4)=1/4f'(4) = 1/4 e

4,022+140,02=2,005.\sqrt{4{,}02} \approx 2 + \frac{1}{4} \cdot 0{,}02 = 2{,}005.

O valor real é 2,004992{,}00499\ldots, por isso o erro é inferior a 10510^{-5}. Repara na estrutura que deves repetir: escolhe ff, escolhe o ponto exato próximo, calcula ff' aí e multiplica pelo desvio.

Taxas relacionadas

A regra da cadeia permite relacionar taxas de variação de grandezas ligadas por uma equação, um tipo de problema que aparece nos testes da cadeira. A receita é: escreve a relação entre as grandezas, deriva implicitamente em ordem ao tempo e substitui os valores do instante pedido.

Exemplo: um balão esférico enche-se à taxa de 100cm3/s100 \, \text{cm}^3/\text{s}. A que ritmo cresce o raio quando r=5cmr = 5 \, \text{cm}? O volume é V=43πr3V = \frac{4}{3}\pi r^3. Derivando em ordem a tt:

dVdt=4πr2drdt.\frac{dV}{dt} = 4\pi r^2 \frac{dr}{dt}.

Com dV/dt=100dV/dt = 100 e r=5r = 5:

100=4π25drdt,drdt=1π0,318cm/s.100 = 4\pi \cdot 25 \cdot \frac{dr}{dt}, \qquad \frac{dr}{dt} = \frac{1}{\pi} \approx 0{,}318 \, \text{cm/s}.

O passo onde os alunos mais falham é derivar em ordem a rr em vez de em ordem a tt, esquecendo o fator dr/dtdr/dt que a cadeia exige.

Para onde ir

A aproximação linear desta página é o primeiro termo de uma ideia maior: aproximar funções por polinómios de qualquer grau. É esse o tema do polinómio e série de Taylor.

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