Medições e incertezas
Multímetro, placa de protótipos, tolerâncias, propagação de incertezas e ajuste de dados.
Uma leitura do multímetro é uma estimativa. Para comparar com o modelo, precisamos de saber o circuito realmente montado, o efeito do instrumento e a incerteza da medição.
Montar e medir
Antes de alimentar uma placa de protótipos, identifica os contactos ligados internamente. Em placas comuns, cada grupo de cinco furos da mesma linha está ligado; a ranhura central separa os lados. Os carris de alimentação podem estar interrompidos a meio. Confirma continuidade com o circuito desligado, em vez de assumir que toda uma linha é um único nó.
O voltímetro liga-se em paralelo. A sua resistência de entrada elevada reduz, mas não elimina, o efeito sobre o circuito. O amperímetro liga-se em série e tem resistência pequena. Ligá-lo em paralelo com uma fonte pode provocar um curto. Para medir resistência, desliga a alimentação, descarrega condensadores e isola a resistência quando outros caminhos alteram a leitura.
Escolhe a grandeza, DC ou AC, os terminais de prova e uma escala adequada antes de ligar. Começa pela escala maior se desconheces o valor. Consulta os limites e a proteção de cada terminal no instrumento utilizado. Estes ensaios destinam-se a fontes de baixa tensão de laboratório; não experimentes ligações à rede elétrica.
Para relacionar uma montagem na placa de protótipos com os nós e caminhos do esquema, podes consultar este vídeo sobre componentes e topologia de circuitos. As instruções de medição e segurança mantêm-se no texto acima.
Exemplo: efeito do voltímetro
Um divisor de alimentado a daria sem carga. Um voltímetro de em paralelo com o resistor inferior dá . A leitura prevista é
O desvio de cerca de é efeito de carga, não necessariamente um instrumento avariado.
Código de cores e tolerância
Numa resistência de quatro bandas, as duas primeiras são dígitos, a terceira é o multiplicador e a quarta indica tolerância. Os dígitos preto, castanho, vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, violeta, cinzento e branco correspondem a até . Dourado e prateado dão multiplicadores e , ou tolerâncias de e quando são a última banda.
Por exemplo, vermelho, violeta, castanho, dourado significa , com tolerância , ou intervalo nominal de a . Em cinco bandas, usam-se três dígitos antes do multiplicador. Tolerância de fabrico não é automaticamente uma incerteza padrão: se modelares o intervalo como uniforme com semilargura , a incerteza padrão é .
Média, dispersão e incerteza
Para observações , a média e o desvio padrão amostral são
estima a dispersão de uma observação. Para observações independentes do mesmo valor, a incerteza padrão da média é . Não substituas uma pela outra sem dizer o que estás a apresentar.
Incertezas de tipo A são avaliadas por observações estatísticas; as de tipo B usam outras informações, como calibração, resolução e especificações. A resolução não é toda a incerteza do aparelho.
Para uma especificação de multímetro do tipo , calcula e soma vezes a resolução da escala usada. Por exemplo, numa escala de com e resolução dá . Distingue este intervalo de especificação da dispersão das tuas leituras.
Uma diferença face ao valor de referência é um erro de medição. Um efeito sistemático pode deslocar todas as leituras e não desaparecer ao repetir. Pequena dispersão não prova exatidão. Uma incerteza padrão não garante que o valor está dentro de um intervalo; com modelo normal, o intervalo de uma incerteza padrão tem cobertura aproximada de .
Propagação de incertezas
Para , incertezas pequenas e entradas não correlacionadas,
Com correlação, acrescentam-se os termos de covariância. Derivadas trigonométricas usam ângulos em radianos.
Para , as derivadas são e , logo
Se e , com incertezas padrão independentes, e . Apresentamos , indicando que a incerteza é padrão. Reduzir a incerteza relativa da corrente pode ser mais útil, porque entra multiplicada por dois.
Repartir o esforço de medição
Para , compara incertezas relativas, não números absolutos em ohms e amperes, porque as unidades não se comparam. Se podes obter incertezas relativas de e , há duas escolhas:
Neste cenário, vale mais atribuir a melhor precisão relativa à corrente. O expoente dois duplica a sua sensibilidade relativa. A escolha não elimina a contribuição da resistência e depende de os custos permitirem precisamente esta troca. Comparar e diretamente nem sequer compara grandezas com a mesma unidade.
Ajustar uma reta
Para , mínimos quadrados ordinários minimizam a soma dos quadrados dos resíduos verticais. O modelo estatístico simples assume incerteza em desprezável, dispersão de igual entre pontos e resíduos independentes. Se as incertezas em diferirem, considera pesos; se as de forem relevantes, o ajuste ordinário pode ser inadequado.
As fórmulas sem pesos são
Medimos quatro pares de corrente e tensão. Ajustamos : o declive tem unidade e a ordenada mede-se em volts.
| (mA) | (V) | Resíduo (V) |
|---|---|---|
As médias são e . Nas fórmulas do ajuste, o numerador vale e o denominador . Assim,
O resíduo é . No gráfico, os dois pontos extremos ficam acima da reta e os dois centrais abaixo. Os desvios são pequenos, mas estes quatro pontos não bastam para decidir se a curvatura é física ou uma flutuação. A ordenada não nula pode sugerir um offset; também não prova a sua causa. Para a investigar, mede mais pontos e verifica o zero do instrumento.
Num gráfico científico, identifica grandezas e unidades nos eixos, mostra uma gama útil e inclui incertezas quando disponíveis.
Monte Carlo pode propagar modelos de incerteza gerando conjuntos sintéticos e repetindo o ajuste; a dispersão dos parâmetros ajustados estima a sua incerteza. Usa um número de simulações suficiente e explicita a distribuição assumida, em vez de tratar o resultado aleatório como exato.
Medições magnéticas
Um magnetómetro de telemóvel mede componentes no referencial do aparelho. Rodar o telemóvel muda as componentes mesmo se o campo exterior não mudar. Para comparar duas situações, mantém posição e orientação, afasta fontes magnéticas próximas e regista uma série de leituras. Um desvio de calibração não desaparece ao calcular a média.
Para estimar a corrente num fio longo, compara o campo com e sem corrente e usa a componente devida ao fio. Se a diferença de campo tangencial for a , a aproximação de fio infinito dá . A presença de retorno da corrente, outros fios e a orientação desconhecida podem impedir esta estimativa. Não uses diretamente o módulo total, que pode incluir o campo terrestre.
Exercícios
Propagar R e I
Medimos e , com incertezas padrão independentes. Calcula a incerteza padrão da potência , em watts.
Pista
Primeiro calcula P e as incertezas relativas.
Solução
. A contribuição da corrente tem peso duplo na incerteza relativa, devido ao expoente dois.
Erros frequentes
Não somes incertezas relativas diretamente para entradas independentes sob este modelo. Não esqueças o fator dois da corrente.
Uma leitura ou a média de leituras
Dezasseis leituras independentes têm desvio padrão amostral . Que incerteza de tipo A atribuis à média? Repetir elimina um offset constante do instrumento?
Pista
A média combina observações independentes; não é uma única observação.
Solução
A incerteza padrão de tipo A da média é . O desvio das observações continua estimado por . Um offset constante não desaparece na média e exige correção ou avaliação adicional.
Confere a tua resposta:
- Distingue desvio padrão de uma observação e incerteza da média.
- Obtém s/√n = 0,05 V.
- Explica que repetição não elimina desvios sistemáticos.
Erros frequentes
Não chames s e s/√n à mesma quantidade, nem uses pequena dispersão como prova de ausência de erro sistemático.
Incerteza pela especificação do multímetro
Uma leitura usa escala de com especificação e resolução . Calcula a parcela da especificação em volts.
Pista
Soma percentagem da leitura com dígitos vezes resolução.
Solução
Dá . É a semilargura do intervalo de especificação, não ainda uma incerteza padrão. Se assumirmos uma distribuição uniforme nesse intervalo, a incerteza padrão de tipo B é .
Erros frequentes
Usar só a resolução como incerteza total ignora a percentagem da leitura exigida pelo fabricante.
Onde compensa medir melhor?
Pretendes estimar com incertezas padrão pequenas e independentes. O equipamento permite uma de duas escolhas: e , ou e .
Qual dá menor incerteza relativa na potência? Justifica com a propagação. Seria válido comparar diretamente e para decidir qual é menor?
Pista
Calcula a sensibilidade relativa de a cada entrada.
Solução
A relação é . A primeira escolha dá . A segunda dá .
Compensa dar a melhor precisão relativa à corrente, cuja sensibilidade relativa tem fator dois. Isso só responde às duas escolhas apresentadas, não a todos os custos possíveis de uma medição.
As incertezas absolutas em ohms e amperes têm unidades diferentes. Para usar a expressão relativa, teríamos ainda de conhecer e e formar as duas razões adimensionais.
Confere a tua resposta:
- Compara incertezas relativas, preservando a independência.
- Obtém √17 % e √8 % para as duas escolhas.
- Atribui 1 % à corrente e justifica pelo expoente dois.
