Duas variáveis aleatórias

Distribuições conjuntas, marginais, condicionais, independência e variância de combinações.

TLDR

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Na inspeção de cada peça regista duas variáveis: XX, que vale 1 se a peça falha e 0 se passa, e YY, que vale 1 se há defeito visual e 0 se não há. Precisas de um modelo para o par, não só para cada coluna, pois mesmo sabendo que metade das peças falha e 60% tem defeito visual, não sabemos quantas têm ambos. A distribuição conjunta descreve o par (X,Y)(X,Y) na mesma unidade e permite calcular essa interseção.

Conjunta, marginais e condicionais

No caso discreto, fX,Y(x,y)=P(X=x,Y=y)f_{X,Y}(x,y)=P(X=x,Y=y). As probabilidades da tabela somam 1. As marginais obtêm-se somando linhas ou colunas:

fX(x)=∑yfX,Y(x,y),fY(y)=∑xfX,Y(x,y).f_X(x)=\sum_y f_{X,Y}(x,y),\qquad f_Y(y)=\sum_x f_{X,Y}(x,y).

Se fY(y)>0f_Y(y)>0, a distribuição condicional é

P(X=x∣Y=y)=fX,Y(x,y)fY(y).P(X=x\mid Y=y)=\frac{f_{X,Y}(x,y)}{f_Y(y)}.

Considera a tabela seguinte:

X\YX\backslash Y01fX(x)f_X(x)
00,30,20,5
10,10,40,5
fY(y)f_Y(y)0,40,61

Temos P(X=1)=0,5P(X=1)=0,5, mas P(X=1∣Y=1)=0,4/0,6=2/3P(X=1\mid Y=1)=0,4/0,6=2/3. Conhecer Y altera a distribuição de X.

Num modelo contínuo com densidade conjunta, somas dão lugar a integrais: fX(x)=∫fX,Y(x,y)dyf_X(x)=\int f_{X,Y}(x,y)dy, e uma probabilidade corresponde a integrar a densidade sobre a região pedida, não a avaliar a densidade num ponto. Dizer que a densidade vale 2 numa região significa que ela é constante nessa região; a probabilidade continua a ser área ponderada, não altura. Por exemplo, se a densidade conjunta vale 2 na região 0<y<x<10<y<x<1 e zero fora, a área do triângulo é 1/21/2, logo a probabilidade total é 1.

Suporte triangular e limites das marginaisA região 0 menor que y menor que x menor que 1 fica abaixo da diagonal y igual a x. O segmento vertical em x igual a 0,6 vai de y igual a 0 até y igual a 0,6. O segmento horizontal em y igual a 0,4 vai de x igual a 0,4 até x igual a 1. Os extremos não pertencem à região.011xy0,40,6y = xx = 0,6y = 0,40 < y < x < 1
Fixa x e percorre o segmento vertical para obter a marginal de X. Fixa y e percorre o segmento horizontal tracejado para obter a marginal de Y. Os círculos abertos assinalam os extremos excluídos.

Para calcular fX(x)f_X(x), fixa x e percorre a região na vertical. Em x=0,6x=0,6, y vai de 0 até 0,6; para um x qualquer entre 0 e 1, vai de 0 até x. Assim,

fX(x)=∫0x2 dy=2x,0<x<1.f_X(x)=\int_0^x 2\,dy=2x,\qquad 0<x<1.

Para calcular fY(y)f_Y(y), fixa y e percorre a região na horizontal. Em y=0,4y=0,4, x vai de 0,4 até 1; para um y qualquer entre 0 e 1, vai de y até 1. Assim,

fY(y)=∫y12 dx=2(1−y),0<y<1.f_Y(y)=\int_y^1 2\,dx=2(1-y),\qquad 0<y<1.

Fora destes intervalos, as marginais valem zero. Os extremos abertos não alteram as integrais, porque pontos isolados têm probabilidade zero neste modelo contínuo. A probabilidade de X>1/2X>1/2 é ∫1/212x dx=3/4\int_{1/2}^1 2x\,dx=3/4. Os limites de integração vêm da região, não de um retângulo inventado.

Probabilidades e condicionais contínuas

No mesmo triângulo, o acontecimento Y>1/2Y>1/2 exige 1/2<y<x<11/2<y<x<1. Integramos primeiro em y, depois em x:

P(Y>1/2)=∫1/21∫1/2x2 dy dx=∫1/21(2x−1) dx=1/4.P(Y>1/2)=\int_{1/2}^1\int_{1/2}^x2\,dy\,dx =\int_{1/2}^1(2x-1)\,dx=1/4.

Se fX(x)>0f_X(x)>0, a densidade condicional de Y dado X é

fY∣X=x(y)=fX,Y(x,y)fX(x).f_{Y\mid X=x}(y)=\frac{f_{X,Y}(x,y)}{f_X(x)}.

Aqui vale 1/x1/x para 0<y<x0<y<x, e zero fora. Para X=0,6X=0,6, a distribuição condicional de Y é uniforme entre 0 e 0,6. Assim,

P(Y<0,3∣X=0,6)=∫00,310,6 dy=1/2.P(Y<0,3\mid X=0,6)=\int_0^{0,3}\frac1{0,6}\,dy=1/2.

Não dividimos por P(X=0,6)P(X=0,6): essa probabilidade é zero. A razão entre densidades define a condicional. X e Y são dependentes, pois saber x muda o intervalo de valores possíveis de Y.

Independência

X e Y são independentes quando a conjunta é o produto das marginais: fX,Y(x,y)=fX(x)fY(y)f_{X,Y}(x,y)=f_X(x)f_Y(y) para todos os pares, no caso discreto, e fatorização da densidade quase em toda a parte no caso contínuo.

Na tabela, P(X=1,Y=1)=0,4P(X=1,Y=1)=0,4, mas P(X=1)P(Y=1)=0,5(0,6)=0,3P(X=1)P(Y=1)=0,5(0,6)=0,3; um único par que falhe já demonstra dependência, enquanto para demonstrar independência não basta verificar um único par.

Covariância e correlação populacionais

Com segundos momentos finitos,

Cov⁡(X,Y)=E(XY)−E(X)E(Y),\operatorname{Cov}(X,Y)=E(XY)-E(X)E(Y), ρ=Cov⁡(X,Y)σXσY,\rho=\frac{\operatorname{Cov}(X,Y)}{\sigma_X\sigma_Y},

quando os dois desvios são positivos. Calcula E(XY)E(XY) com a conjunta, somando xyfX,Y(x,y)xyf_{X,Y}(x,y), sem usar automaticamente E(X)E(Y)E(X)E(Y): essa igualdade é consequência da independência, não uma regra universal.

No exemplo, E(X)=0,5E(X)=0,5, E(Y)=0,6E(Y)=0,6 e E(XY)=0,4E(XY)=0,4. Logo, a covariância é 0,4−0,5(0,6)=0,10,4-0,5(0,6)=0,1. Como X e Y só tomam 0 ou 1, chamamos-lhes indicadores. Para um indicador,

Var⁡(X)=0,5(0,5)=0,25,Var⁡(Y)=0,6(0,4)=0,24,\operatorname{Var}(X)=0,5(0,5)=0,25,\quad \operatorname{Var}(Y)=0,6(0,4)=0,24, ρ=0,10,25(0,24)≈0,4082.\rho=\frac{0,1}{\sqrt{0,25(0,24)}}\approx0,4082.

Independência implica covariância nula. O inverso não vale em geral. Se X toma −1,0,1-1,0,1 com igual probabilidade e Y=X2Y=X^2, então E(X)=E(XY)=0E(X)=E(XY)=0 e a covariância é zero. Contudo, P(Y=0∣X=0)=1P(Y=0\mid X=0)=1, enquanto P(Y=0)=1/3P(Y=0)=1/3.

Somar e subtrair

A linearidade da esperança não exige independência:

E(aX+bY+c)=aE(X)+bE(Y)+c.E(aX+bY+c)=aE(X)+bE(Y)+c.

Para a variância,

Var⁡(aX+bY)=a2Var⁡(X)+b2Var⁡(Y)+2abCov⁡(X,Y).\operatorname{Var}(aX+bY)=a^2\operatorname{Var}(X)+b^2\operatorname{Var}(Y)+2ab\operatorname{Cov}(X,Y).

Na tabela, E(X+Y)=1,1E(X+Y)=1,1 e Var⁡(X+Y)=0,25+0,24+0,2=0,69\operatorname{Var}(X+Y)=0,25+0,24+0,2=0,69. Para a diferença,

Var⁡(X−Y)=0,25+0,24−0,2=0,29.\operatorname{Var}(X-Y)=0,25+0,24-0,2=0,29.

A covariância positiva aumenta a variância da soma e reduz a da diferença. É a razão por que o emparelhamento pode melhorar uma comparação: as duas medições da mesma unidade tendem a partilhar variação.

Para variáveis independentes, o termo de covariância desaparece. As variâncias somam-se na soma e na diferença; os desvios padrão não se somam. Para observações i.i.d. de variância σ2\sigma^2,

Var⁡(∑i=1naiXi)=σ2∑i=1nai2.\operatorname{Var}\left(\sum_{i=1}^n a_iX_i\right)=\sigma^2\sum_{i=1}^n a_i^2.

Por exemplo, 0,4X1+0,1X2−0,3X3+0,2X4−0,50,4X_1+0,1X_2-0,3X_3+0,2X_4-0,5 tem variância (0,16+0,01+0,09+0,04)σ2=0,30σ2(0,16+0,01+0,09+0,04)\sigma^2=0,30\sigma^2. A constante muda a média, não a variância.

Exercícios

Subtrair medições dependentes

Var(X)=4, Var(Y)=9 e Cov(X,Y)=3. Calcula Var(X−Y).

Pista

O termo de covariância conserva o sinal dos coeficientes.

Solução

Var⁡(X−Y)=4+9−6=7\operatorname{Var}(X-Y)=4+9-6=7. A covariância positiva reduz a variância da diferença.

Erros frequentes

Não subtraias as variâncias nem omitas a covariância.

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Verificar uma conjunta

X e Y são indicadores. P(X=1)=0,4, P(Y=1)=0,5 e P(X=1,Y=1)=0,3. Decide se são independentes e calcula a covariância.

Pista

Para indicadores, o produto vale 1 só quando ambos valem 1.

Mais uma pista

E(XY)=P(X=1,Y=1).

Solução

O produto das marginais é 0,4(0,5)=0,2, diferente de 0,3. Não são independentes. A covariância é 0,3−0,4(0,5)=0,1.

Confere a tua resposta:

  • Compara 0,3 com o produto 0,2 e conclui dependência.
  • Usa E(XY)=0,3 para indicadores.
  • Obtém covariância 0,1.

Erros frequentes

Não impor E(XY)=E(X)E(Y) antes de justificar independência.

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Combinação de observações independentes

X1, X2 e X3 são independentes, cada um de variância 10. Calcula a variância de 0,5X1−0,2X2+0,3X3+7.

Pista

Eleva os coeficientes ao quadrado.

Solução

10(0,52+(−0,2)2+0,32)=10(0,25+0,04+0,09)=3,810(0,5^2+(-0,2)^2+0,3^2)=10(0,25+0,04+0,09)=3,8. Sem independência, seriam necessários termos de covariância.

Erros frequentes

Não somar coeficientes sem os elevar ao quadrado.

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Integrar uma região do triângulo

A densidade conjunta vale 2 em 0<y<x<10<y<x<1 e zero fora. Calcula P(Y>0,4)P(Y>0,4).

Pista

O acontecimento tem limites 0,4<x<10,4<x<1 e 0,4<y<x0,4<y<x.

Mais uma pista

Integra 2(x−0,4)2(x-0,4) entre 0,4 e 1.

Solução
P(Y>0,4)=∫0,41∫0,4x2 dy dx=∫0,412(x−0,4) dx=(1−0,4)2=0,36.P(Y>0,4)=\int_{0,4}^1\int_{0,4}^x2\,dy\,dx=\int_{0,4}^1 2(x-0,4)\,dx=(1-0,4)^2=0,36.

Erros frequentes

Não integrar num retângulo: y só pode ir até x. A densidade 2 não é uma probabilidade.

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Fixar uma variável contínua

A densidade conjunta vale 2 em 0<y<x<10<y<x<1 e zero fora. Determina a densidade de Y dado X=0,8X=0,8 e calcula P(0,2<Y<0,6∣X=0,8)P(0,2<Y<0,6\mid X=0,8).

Pista

A condicional é a conjunta dividida pela marginal de X.

Mais uma pista

fX(0,8)=1,6f_X(0,8)=1,6. Conserva também o suporte.

Solução

Temos fX(x)=∫0x2 dy=2xf_X(x)=\int_0^x2\,dy=2x. A condicional é 2/1,6=1,252/1,6=1,25 em 0<y<0,80<y<0,8, e zero fora. A probabilidade é ∫0,20,61,25 dy=0,5\int_{0,2}^{0,6}1,25\,dy=0,5. Embora P(X=0,8)=0P(X=0,8)=0, a razão de densidades define esta distribuição condicional.

Confere a tua resposta:

  • Obtém a marginal fX(x)=2x para 0<x<1.
  • Obtém densidade condicional 1/0,8 em 0<y<0,8 e zero fora.
  • Integra entre 0,2 e 0,6 e obtém 0,5.
  • Distingue a razão de densidades de uma divisão por P(X=0,8).

Erros frequentes

Não usar densidade 2 sem a normalizar nem dividir por uma probabilidade pontual nula.

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